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Outro Olhar

O garoto e a bola

Achava que só como jogador um garoto negro, pobre, favelado, podia ter chance de ser feliz e prosperar na vida
O garoto e a bola
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Lá no canto da sala está a bola, enfim esquecida, sem ser tocada de lado ou de frente, de voleio ou de bicicleta, de jeito nenhum. É a bola de Nuno, o garoto de 13 anos que treinava no time de Lua Nova, a cidade vizinha.

Como habitualmente, na quarta-feira Nuno chegou da escola, almoçou e saiu de casa para treinar. Dirigiu-se ao ponto de ônibus. Lua Nova era longe, uma hora de caminhada. Melhor ir de ônibus.

Nuno trancou a porta e desceu os trinta degraus da viela até chegar à rua. Enquanto caminhava, pensava nos dribles, nos gols que faria no treino, nos aplausos da torcida de amigos que acompanhava o jogo com grande entusiasmo.

Estava feliz. Tinha sido convidado para treinar num time maior e essa era uma chance espetacular para o sonho de uma carreira no futebol.

Os pais o apoiavam, mas faziam questão de que conciliasse os treinos com a escola. Se fracassasse no futebol, alertavam, tinha que atingir a educação necessária para ter uma profissão e garantir trabalho.

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Ele se destacava entre os garotos do time de Lua Nova. Jogava em todas as posições, mas era no ataque que tinha o melhor desempenho. Fazia muitos gols e foi essa performance que atraiu um olheiro do time maior.

Tinha uma relação de carinho com a bola. Quando era bem menor, aos 3 anos, dormia abraçado à bola como se ela fosse um bichinho de estimação.

Nem tudo era vibrante. Um dia, desanimado, quis desistir de tudo. O técnico do time de Lua Nova o convenceu a continuar na trilha dos sonhos. Falou do exemplo de atletas que tinham comido o pão que o diabo amassou antes de se sagrarem vitoriosos. A injeção de ânimo produziu efeito e ele voltou a se reanimar.

Os sonhos eram quase impossíveis, mas mesmo assim se deixava dominar pelas ilusões de grandes conquistas. Tinha referências altas nos campos do mundo. Vibrava com os dribles de Neymar, os gols de Messi, a garra de Cristiano Ronaldo.

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Também sabia que o futebol era mais do que um esporte. Era um negócio, uma oportunidade de vida para quem fosse craque. Ir para a Seleção, ganhar uma Copa do Mundo, jogar num clube da Europa. Eram sonhos que pareciam impossíveis. Mas não custava sonhar. Fazia bem à autoestima.

O futebol podia ser a salvação da família de seis pessoas. Nuno era o mais velho de quatro filhos. A mãe era diarista, o pai era pedreiro. A luta contra a pobreza era uma rotina constante.

Moravam num conjunto de favelas. O grande desafio era comprar uma casa e tirar a família daquele lugar triste. Nuno não entendia porque, mas era só no samba e na poesia que a favela aparecia com aura de bom lugar de se viver. Na realidade a favela era como uma sentença, um castigo, uma punição. A favela era um lugar de muita pobreza, violência, desamparo. Lugar de muita desesperança. Era assim que ele sentia.

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E com o futebol conseguiria tirar a família dali. Achava que só como jogador um garoto negro, pobre, favelado, podia ter chance de ser feliz e prosperar na vida. Era nisso que acreditava e essa esperança lhe dava forças para jogar cada vez melhor.

Foi pensando nessas coisas que Nuno chegou ao ponto de ônibus. Carregava uma mochila com um par de chuteiras. Viu o instante em que o ônibus dobrou na esquina e se preparou para fazer o sinal de parada. Foi quando sentiu uma dor aguda no peito. Não viu mais nada.

O motorista do ônibus testemunhou a cena. Disse que no momento da tragédia havia um tiroteio entre policiais e bandidos. Uma bala perdida atingiu Nuno e interrompeu os seus sonhos para sempre.

Alguém, que passou correndo com uma arma pesada, acusou o garoto de ser traficante. Mas abriram a mochila dele e só encontraram o par de chuteiras. Nem todas as lágrimas foram suficientes para perdoar o autor dos disparos.

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