Outro Olhar

Memórias do porão

Não era a namorada, pois ela tinha a chave e entrava sem se anunciar
Memórias do porão
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Passados 31 anos, recordo como se fosse hoje o instante em que, numa noite de março, deram duas batidas na porta do porão onde eu morava e tive dúvida se devia atender ou não.

O porão ficava nos fundos de uma casa da rua Dr. Rubino de Oliveira, na Vila Carvalho, em Sorocaba. O ano era 1988 e eu tinha 27 anos. Eram os meus primeiros tempos na cidade fundada por Baltasar Fernandes.

Eu já era repórter no Cruzeiro do Sul desde 1987. Morava no porão depois de ter vivido um mês numa pensão da rua Maylasky, no centro da cidade. O proprietário da casa da rua Dr. Rubino de Oliveira indicara o aluguel do porão, que estava desocupado, e eu, achando que o novo espaço era melhor do que a pensão, aceitara a oferta. No novo endereço eu ao menos teria privacidade.

O porão tinha seis metros quadrados e um metro e setenta de altura. Era um lugar exclusivo para dormir. Devido ao trabalho no jornal e serviços de assessoria de imprensa que me absorviam integralmente, eu passava o dia inteiro fora e só retornava à noite para descansar.

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O teto do porão tinha vigas à mostra, que formavam a sustentação da base da casa. As paredes eram parcialmente rebocadas, o chão era de tijolos. Não havia janela. Na parede oposta à porta havia um buraco de quase um metro de diâmetro que dava entrada a uma espécie de alçapão. Essa abertura era fechada com um pedaço velho de madeira de compensado.

Nessa moradia, eu tinha durante a noite a companhia de livros e de um rádio de pilha para ouvir a programação de rock da Metropolitana, uma emissora da época. Por causa do calor, às vezes eu dormia com a porta aberta para favorecer a ventilação natural. O ar abafado incomodava nas noites quentes. Tempos depois, a visita quase diária de uma namorada encheu de poesia esse lugar abandonado e solitário.

Foi com naturalidade que um dia o proprietário da casa me disse que o imóvel era muito antigo e em tempos passados o porão era um lugar de depósito de caixões de defunto. Os caixões também lotavam o espaço existente a partir do buraco na parede. O dono do imóvel era gerente de uma funerária. E o atual proprietário não contara essa história antes com receio de que eu não aceitasse morar ali por medo de assombrações.

Afastei qualquer preocupação nesse sentido. Deixei claro que eu não tinha medo de nada. Argumentei que almas do outro mundo não faziam mal a ninguém e devíamos nos preocupar com os vivos.

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Eu tinha crescido num ambiente familiar em que as histórias de assombrações eram frequentes. Como bons nordestinos, meus pais, tios, avós, eram contadores de histórias de trancoso e as assombrações eram figuras constantes em cenários de casas antigas, caminhos desertos, noites insondáveis.

Talvez por essa influência de família, eu me habituara à ideia de que as assombrações eram fantasias e isso me ajudara a exorcizar o terror que elas provocavam nas pessoas. Eu me sentia capaz de conviver com assombrações e conversar com elas, se isso fosse possível.

Pois naquele instante em que fui surpreendido com duas batidas na porta, alguma coisa despertou em mim uma desconfiança sobrenatural. Não era a namorada, pois ela tinha a chave e entrava sem se anunciar. Não podia ser o proprietário da casa porque naquela hora da noite não havia ninguém na parte de cima do imóvel.

Meu pai alertava que quando a gente ouve um chamado estranho não é recomendável responder sem ter a certeza da origem do som. Segundo ele, o risco de tomar um susto nessas ocasiões é total.
Embora adulto, eu me rendi à criança que existia em mim e abri a porta. Não havia ninguém. E em choque com a minha presunção de não ter medo de nada, confesso que fiquei arrepiado.

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No outro dia, alta noite, eu estava sentado no batente da porta do porão. Novamente sozinho, distraído, ouvindo música. E de repente, fui sacudido por um calafrio no instante em que enxerguei um vulto que me espreitava de um canto da parede branca da casa.

Era uma assombração envolta num vestuário escuro e eu só a vi parcialmente. A parte correspondente ao corpo estava oculta no ângulo em que a parede formava uma quina. Três metros me separavam do local da aparição. A distância era suficiente para afastar qualquer engano.

Meu impulso foi levantar e correr na direção do vulto. Nesse momento, ele desapareceu, sem ruído. Eu avancei uns dez metros no escuro, quintal adentro, e não vi mais nada. Então voltei rapidamente ao porão, fechei a porta, apaguei a luz e tentei dormir.

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