Outro Olhar

Ilusões e cinzas

Coluna "Outro Olhar", do jornalista Carlos Araújo
Ilusões e cinzas
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Fábio devia ir para São Paulo ou não? A vida na cidade pernambucana de Paulista estava difícil. Não havia emprego. Ele não tinha dinheiro para pagar o aluguel, fazer a feira no mercado, comprar remédio. Se viajar para longe era um grande risco, ficar na terra natal era suicídio. Passou vários dias em dúvida, atormentado pela pressão do destino. Não havia dinheiro nem para a passagem.
Procurou tio Valério, falou do seu dilema e ele lhe emprestou o dinheiro da passagem de ônibus. Devia deixar Edilza, a mulher, e enviaria dinheiro para buscá-la assim que pudesse.

Foi então que, num domingo de carnaval, embarcou no ônibus da Itapemirim na rodoviária de Recife. Desembarcou na rodoviária de São Paulo três dias depois. Dirigiu-se à Vila Itaberaba, onde morava um primo e a quem pretendia pedir abrigo provisório. Mas o primo tinha se mudado para lugar desconhecido.

Encontrou um teto num abrigo público para nordestinos na Baixada do Glicério. Lá ao menos tinha banho e comida. Durante o dia procurava emprego, mas as coisas estavam complicadas. Como em Paulista, trabalho também era coisa rara na grande metrópole.

Outro morador do abrigo público disse a Fábio que ele poderia alugar um barraco num conjunto de pequenas moradias localizado embaixo do Viaduto do Jaguaré. No dia seguinte, mudou-se para o novo local. O barraco era pequeno, dormia em colchonete no chão, mas tinha um teto. O organizador do lugar disse que ele podia pagar o aluguel logo que encontrasse trabalho.

Nessa batalha, desalentado, Fábio criou uma forma diferente de pedir emprego. Escreveu o pedido num cartaz de papelão. Na parte inferior do cartaz, cravou a frase desesperada: “Minha necessidade é muito maior do que a vergonha de eu estar aqui.” Tentativa inútil. Nada conseguiu.

A pressão por enviar dinheiro para Edilza e buscá-la em Paulista começou a agravar as coisas. Tinha delírios de culpa por não saber como superar o destino incerto. Criado em família que prezava os valores de honestidade, chegou a duvidar se valia a pena ser decente.

Com a ajuda de um morador do barraco vizinho, que lhe emprestou um celular, ligou para tio Valério e recebeu a notícia triste: “Esqueça Edilza, ela já se uniu a outro homem.” Fábio desmoronou de angústia, mas conteve a lágrima. Não havia mais o que fazer e agora ele tinha a obrigação de viver sozinho.

Passaram-se dois dias após ter falado com tio Valério. De madrugada, em meio ao sono no barraco onde dormia, foi despertado por uma sensação de calor. Acordou com dificuldade para respirar. Levantou-se correndo e ainda viu as labaredas de fogo que engoliam os barracos vizinhos.

Fábio saiu para a rua. Trêmulo, estava em choque. Juntou-se aos outros desabrigados. Ainda tinha que agradecer a sorte de ter escapado com vida.

Vieram os bombeiros, mas já era tarde. O espaço embaixo do viaduto estava reduzido a cinzas.

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