Outro Olhar

E se Superman estiver com a razão

Há muito tempo a humanidade se equilibra nos extremos: ou uma ação é sinônimo de sensibilidade, de um lado, ou é a tradução da intolerância, de outro

Decifrar porque a inteligência convive com a barbárie é um dos grandes desafios da natureza humana. Essas duas forças habitualmente entram em rota de colisão e, como num processo de fusão, duelam no mesmo espaço, na frequência dos mesmos acontecimentos, na fração de curtos períodos históricos relevantes para o planeta.

Por que isso acontece? Por que a inteligência não é capaz de eliminar toda a barbárie e, na contramão do raciocínio, por que a barbárie não detém a inteligência? Ou será que, para cúmulo do absurdo, uma e outra coisa são a mesma coisa?

A história é farta em exemplos de que nenhum conhecimento é capaz de deter a brutalidade. Desde a ascensão do nazismo, antes do início da Segunda Guerra Mundial, uma pergunta inquietante ronda os estudos sobre relações de poder: como explicar que a Alemanha, um país celebrado como referência filosófica, artística, científica, permitiu a dominação de um sistema de governo de extremo totalitarismo liderado por Adolf Hitler?

Questões de igual natureza podem ser feitas sobre acontecimentos em outras partes do mundo. Uma delas é como os EUA, modelo universal de democracia, foi capaz de lançar as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e como se dispôs a patrocinar as ditaduras latinoamericanas nas décadas de 1960 e 1970.

No campo das potências também é intrigante um fenômeno totalitário como o stalinismo no século passado e sua perpetuação nos governos que se seguiram, especialmente na era Vladimir Putin, se se considerar que esse país produziu gigantes da literatura como Tolstói e Dostoievski, ícones da dança como Rudolf Nureyev e o Balé Bolshoi, gênios do cinema como Serguei Eisenstein e Alexandr Sokurov.

Olhando para o nosso território, o Brasil, um país exaltado em prosa e verso por suas belezas naturais e sua riqueza mineral, sua alegria e sua paz, seu carnaval e sua música criativa, um país de gênios como Machado de Assis e Tom Jobim, Pelé e Garrincha, carrega em seu DNA a marca de mais de 300 anos de escravidão negra, tem uma das sociedades mais desiguais do mundo e sofre com a impotência de não ter solução para a brutalidade que assassina mulheres e crianças e transforma regiões do Rio e de Fortaleza em zonas de guerra.

Por mais que os processos históricos e de identidade de cada lugar apresentem versões para as origens e o desenvolvimento desses contrastes, é impossível não se indignar com os estragos colhidos nos rastros de passagem do bem e do mal. É como se houvesse um pacto de cumplicidade entre o sublime e o grotesco, entre a utopia e a realidade insuportável.

O homem que se orgulha de alcançar Marte por meio de robôs muitas vezes não consegue sair de casa com medo de assalto. Há muito tempo a humanidade se equilibra nos extremos: ou tudo é muito ruim ou tudo é muito bom; ou uma ação é sinônimo de sensibilidade, de um lado, ou é a tradução da intolerância, de outro.

Em meio a esses pensamentos, de repente alguém depara com um filme que oferece alguma interpretação para o dilema das manifestações de luz e de trevas na sociedade. O filme é “Kill Bill”, de Quentin Tarantino. Em cena estão David Carradine e Uma Thurnan. Antes de um duelo de lutas marciais, os personagens conversam sobre histórias em quadrinhos e ele afirma que seu super-herói preferido é o Superman.

Carradine diz que o Superman já nasceu super-herói. Os concorrentes Batman e Homem-Aranha se disfarçam como pessoas comuns e precisam de uma roupa mágica para acionarem seus poderes. O Superman, ao contrário, acorda de manhã como super-herói e para se disfarçar incorpora um homem comum na figura do repórter Clark Kent. “Fraco, muito inseguro, covarde”, descreve Carradine. Mais do que um disfarce, é assim que o Superman vê os humanos.

E se ele estiver com a razão, como explicar a capacidade humana de ser ao mesmo tempo sublime e grotesca? O trágico é que as coisas não mudam, como se cumprissem destinos. Recorrer à arte e à filosofia como forma de digerir essas aflições é uma tentativa de interpretar a realidade. Mas nada vai além disso. Não há nenhuma compensação para a fragilidade humana. Nem super-heróis.

Talvez o destino humano seja mesmo o sofrimento como castigo por crimes hediondos e inconfessáveis cometidos todos os dias por uma grande parte dos homens — e permitidos pela outra parte.

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