Outro Olhar

Doce ilusão

Coluna "Outro Olhar", do jornalista Carlos Araújo
Doce ilusão
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Quanta história, quanta emoção, quanto mistério pode conter um ovo de Páscoa.

Na quinta-feira antes da Páscoa, ao terminar mais um dia de treino na academia, João Navarro despediu-se de Irma — uma linda mulher que começava a entrar no seu jogo de conversa — com uma receita de gastronomia:

— Coma chocolate à vontade, sem moderação.

— Só se eu ganhar um ovo de Páscoa — provocou Irma.

João não titubeou. Sentiu-se desafiado. Inspirado, melhor dizendo. E falou que Irma receberia um lindo ovo de Páscoa em casa, se soubesse onde ela morava. Irma apenas sorriu. E ele insistiu em saber como poderia lhe dar o ovo de Páscoa.

— Aqui mesmo, na academia — ela disse. — Sábado, dez e meia.

Na Sexta-Feira Santa, João foi à loja de delícias e guloseimas mais saborosa que conhecia. A imaginação já começava a fervilhar. Ia apenas dar um ovo de Páscoa a uma bela mulher, ele pensou, contendo os impulsos da ilusão ordinária.

A imaginação cria possibilidades insondáveis. Homem tem o hábito de confundir as coisas no jogo de conversas e sorrisos e João não era diferente. Também pensou na hipótese de ela não aparecer no sábado, mas tinha que correr o risco.

E a hipótese se confirmou. Ele adiou um compromisso exclusivamente para estar às dez e meia no treino e poder entregar o ovo de chocolate. Mas ela não apareceu. Nem às dez e meia, nem ao meio dia, nem em hora nenhuma.

João curtiu a frustração natural de quem aposta num jogo de azar. Mas não quis voltar para casa com o produto da ilusão.

Entre tantas outras beldades que treinavam na manhã de sábado, selecionou aquela que poderia ser comparada a uma obra de arte “esculpida pelo divino escultor”, como diria Machado de Assis. Nunca a tinha visto antes. Na hora em que ela ia embora, abordou-a assim, direto:

— Quer ganhar um ovo de Páscoa?

— Não — ela reagiu, entre o sorriso e a surpresa.

E ela logo completou, se contradizendo.

— Eu não ganhei um ovo ainda. Gostaria, sim.

Cléo (era o nome dela) quis saber por que João queria se livrar do ovo de Páscoa. Ele contou a verdade. Falou de Irma e da frustração de não poder dar o ovo de presente. Não queria voltar para casa com um sentido de abatimento.

Até aqui, corria o risco de ouvir uma recusa de Cléo. Ela podia se sentir uma intrusa, já que o ovo fora destinado originalmente a outra mulher. Mas a cara de desamparo de João foi tão convincente, que ela aceitou:

— Onde está o ovo?

João se dirigiu ao armário onde guardava chaves, documentos e outros objetos, e pegou o ovo de Páscoa envolto numa linda sacola de presente.

No instante da entrega, João recebeu de Cléo um beijo no rosto, um abraço e um olhar de agradecimento.

Sem saber nada sobre ela, muito menos se a encontraria novamente, João sepultou a frustração com Irma e agora se sentiu bem. O sorriso de Cléo era tudo o que ele precisava para driblar o vazio no peito e fazer pulsar forte o coração.

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