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Outro Olhar

Carta para Fernanda Montenegro

Carta para Fernanda Montenegro
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Prezada Fernanda Montenegro, parabéns pelo aniversário de 90 anos de vida completados em 16 de outubro.

Eu não a conheço pessoalmente, não tive essa oportunidade, mas isso não é limite para a grande admiração que tenho por você há décadas.

Por sua trajetória no teatro, no cinema, na televisão, você transcendeu a condição de artista e passou a ser um símbolo da cultura brasileira. Merece todas as homenagens de um país que nem sempre sabe reconhecer e valorizar os seus heróis.

Quando muitos de nós, seus admiradores, nascemos, você já pertencia à categoria das atrizes monumentais como Cacilda Becher, Tônia Carrero, Marília Pêra. Depois, você se tornou uma estrela de máxima projeção. Conquistou a posição de grande dama da dramaturgia. Tornou-se exemplo de dignidade, de caráter generoso e de mulher desbravadora de caminhos numa sociedade machista e de rara compreensão da alma feminina.

Com o talento e a vocação para os palcos, a intimidade com as câmeras, a desenvoltura para ser Fernanda Montenegro aqui e no exterior, você elevou a condição da mulher brasileira aos significados que muitas bandeiras de lutas feministas não conseguem atingir.

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Há décadas você inspira legiões de atores, resgata do limbo dramaturgos que estavam condenados ao esquecimento, impulsiona produtores e diretores em projetos culturais que recebem aplausos no Brasil e no exterior.

A participação de artistas da sua importância nas telenovelas brasileiras ajuda a combater o preconceito de parcela da crítica que vê como produção menor os folhetins que, em tempos de internet, redes sociais, Netflix, ainda são sucessos de público. Sua presença em filmes premiados também contribui para derrubar barreiras provincianas erguidas contra o cinema nacional.

Todo projeto com sua participação tem destaque especial com benefícios para os produtores, os artistas, o público, e também para a arte em sua expressão como território cultural. Certamente o dramaturgo Nelson Rodrigues adorou o seu trabalho em “A falecida”, filme inspirado em peça de autoria dele. E o diretor Walter Salles deve ter vibrado com sua escolha para a personagem Dora em “Central do Brasil”. Dora escrevia cartas para analfabetos em uma estação ferroviária do Rio e foi pensando nessa personagem que me atrevi a lhe escrever esta carta.

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Se pertencesse à indústria de massa norte-americana, você faria companhia às divas Katharine Hepburn, Bette Davis, Vivien Leigh. No Brasil, onde tudo é mais árduo, você faz companhia a outra galeria de atrizes de primeiro time, de Laura Cardoso a Ruth de Souza, e faz crer que é possível celebrar a dignidade num país de tanto medo e desconfiança.

Como reflexo desse clima tenso, espanta que, perto de completar os 90 anos como coroação dessa biografia magistral, alguém tenha tido o despudor e a covardia de desrespeitá-la com ofensas insanas, imperdoáveis. Alguém que nem era nascido quando você já marcava presença na cena cultural do país. Alguém que nem merece crédito e que, ao atacá-la, é como se apelasse a um golpe baixo como forma de compensar a incapacidade de ser ao menos aprendiz de Fernanda Montenegro. Não ligue para essas ofensas, elas não merecem atenção.

Essas loucuras acontecem porque vivemos tempos de intolerância, prezada Fernanda. Nem Chico Buarque e Paulo Freire, outros dois símbolos brasileiros, escapam de truculências raivosas. Nesses períodos de incertezas, figuras como a sua ganham ainda mais realce, brilham mais, iluminam esperanças. Não é à toa que viajantes precisam de lanternas quando cai a noite e têm que continuar a jornada porque ainda é longo o caminho a percorrer dentro da escuridão.

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Certa vez, na década de 1990, você foi sondada pelo governo de plantão para ser ministra da Cultura. Para nossa sorte, você não quis entrar nessa seara. O país perdeu uma ministra e a dramaturgia conseguiu garantir a sua permanência nos palcos da existência.

Você, querida Fernanda, nos faz crer que a arte ainda pulsa, a cultura é palco de resistência e a vida vale a pena. E você ainda se faz representar por outra Fernanda, a filha, também seguidora dos seus passos.

Nós, seus fãs, temos muito a lhe agradecer pela artista que você é e por todas as emoções que você nos proporciona. Com devotada reverência, um abraço do tamanho do Brasil.

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