Outro Olhar

As ‘Vidas Secas’ do Brasil

A tradição brasileira tem o hábito de rejeitar livros na linha de “Vidas Secas”. Rotula-os com o selo da denúncia social e do cunho político como forma de minar a qualidade artística.
As “Vidas Secas” do Brasil
Arte: Lucas Araújo

“Vidas Secas“, romance de Graciliano Ramos publicado em 1938, completou 80 anos em 2018. O livro, que entrou nas livrarias no primeiro semestre de 1938, marcou um dos momentos em que a ficção em língua portuguesa foi elevada à condição de obra de arte.

Tivesse sido escrito em língua estrangeira, “Vidas Secas” teria o mesmo prestígio de “O Estrangeiro” (Albert Camus) e quem sabe Graciliano poderia ter levado o Nobel de Literatura. Se “O Estrangeiro” traduz o homem moderno, indiferente e fútil, “Vidas Secas” é a alma do povo brasileiro, trágico e desamparado em sua identidade perdida.

Mas quis o destino que “Vidas Secas” fosse a criação de um escritor brasileiro. E de um autor genial, que entrelaçou linguagem, meio ambiente e criaturas humanas em luta pela sobrevivência na caatinga nordestina.

Retrato de uma região miserável, a obra é um mergulho no Brasil profundo, árido, sertanejo. Um Brasil que continua atual nas relações de desigualdade, injustiça, desencanto sem fim. Que não superou as suas contradições. Que insiste em ser incompleto e ancorado numa sociedade que se equilibra entre os extremos.

O romance de Graciliano é um clássico da estética do sertão. Celebrado por Euclides da Cunha em “Os Sertões” e em filmes como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber Rocha), “o sertão está em toda parte”, como escreveu Guimarães Rosa. Está na caatinga de cactos e chão rachado pelo calor do sol. E ganha versões urbanas em aspectos que vão da violência à desigualdade social.

Fabiano, o protagonista, é o sertanejo expulso da terra pela miséria irremediável. Terra de mandacaru e falta de água. Terra sem compaixão, hostil, cruel com os seus filhos.

A força da arte de Graciliano dinamitou qualquer resistência daqueles que poderiam rejeitá-la por emoldurar uma realidade sem retoques de um país acostumado a se fantasiar de exotismo para inglês ver. Não há esperança na narrativa, nem poderia, já que ela conta a história de uma família que foge da miséria.

Outro autor teria amenizado o impacto da saga de Fabiano e sua família com tintas de esperança. Não há indicação de rumo certo para os “infelizes”. Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência.

A tradição brasileira tem o hábito de rejeitar livros na linha de “Vidas Secas”. Rotula-os com o selo da denúncia social e do cunho político como forma de minar a qualidade artística. Foi assim com os primeiros romances de Jorge Amado, com “Zero” de Ignácio de Loyola Brandão e “A Festa” de Ivan Angelo. No teatro, como em “Rasga Coração” de Ouduvaldo Vianna Filho e muitas outras peças, o preconceito também foi uma tristeza.

Nessa tradição, esquecemos que a literatura estrangeira é farta em obras inspiradas em questões sociais e políticas e que nem por isso perdem qualidade. “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, é um romance que traça o painel de uma União Soviética em convulsão durante a ditadura de Stalin e nem por isso perdeu o seu vigor literário.

Tendemos a rejeitar nossas obras quando elas se destacam pelo viés crítico e arrebatador e afrontam o gosto de uma elite cultural presunçosa pelo poder de determinar o que vale e o que não vale a pena como obra de arte. Até mesmo negamos à arte essa tradição provocante.

Admitimos essa atribuição para a literatura estrangeira, mas rejeitamos aqui esse caminho. Nada mais provinciano. Se Shakespeare se rendesse a essa negação, não teria produzido uma única de suas peças, todas centradas no poder como alvo e inspiração.

Talvez sejamos assim, avessos ao conteúdo político das obras de arte, para não nos chocarmos com as nossas misérias que insistem em romper fantasias e mundos de faz-de-conta. “Vidas Secas”, ao contrário, superou essa mania brasileira de fugir da realidade e de negar à criação artística os valores que outras formas de expressão não conseguem decifrar com tamanha clareza e profundidade.

Nenhum estudo histórico pode ser feito sobre o Brasil sem levar em conta “Vidas Secas”. Nenhuma reportagem sobre a seca nordestina jamais atingiu o nível de verdade contido na obra de Graciliano. Isso acontece porque a literatura (seja no romance, no conto, no teatro, na poesia) é superior às outras formas de expressão, graças à liberdade de se despir de medos, pudores, limites.

Fabiano não fracassou; ele nasceu com o destino de não ser ninguém e de não encontrar nada a seu favor. Ele está em qualquer tempo e lugar: na caatinga, nos pampas, no cerrado, no asfalto. É a estética do sertão que se eterniza na identidade do brasileiro. Somos todos Fabiano e sua família de retirantes. É esse o sentimento que nos desconcerta e nos leva a ler o romance tantas vezes quantas forem necessárias. Oitenta anos depois, a força de atração de “Vidas Secas” resiste ao tempo como um mistério insondável.

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