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Outro Olhar

A terapeuta marciana

A terapeuta marciana
Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br

Imagine que num futuro não muito distante a tecnologia estará tão avançada que as viagens interplanetárias serão rotina. Uma ponte aérea vai ligar a Terra a Marte. A viagem vai ser moleza.
Nesse futuro, um terráqueo chamado Jota Ix, cansado do turbilhão de confusões que assola o planeta, larga tudo e vai morar em Marte. Vai em busca de sossego. A Terra se tornou um lugar insuportável com tantas guerras, doenças, injustiças. Muita gente tem se mudado para Marte e ele, inspirado, segue essa onda.

No novo mundo, fica deslumbrado sobretudo com as marcianas. Destacam-se por extraordinária beleza e atendem por nomes de flores: Amarílis, Begônia, Calêndula, Azaléia, Camélia. Em contrapartida, os homens são figuras esquisitas, disformes, e seus nomes evocam pedras: Mármore, Granito, Paralelepípedo, Cascalho, Pedregulho.

Nos primeiros tempos, Jota Ix descobre que Marte já não é um lugar tão tranquilo como imaginava. Os terráqueos pioneiros, assim que chegaram, invadiram terras, numa transferência da mania de grilagem típica do planeta de origem. Em Marte, expulsaram os ocupantes nativos, demarcaram territórios, criaram domínios equivalentes aos grandes latifúndios. E esse modo de agir provocou conflitos.

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— Já estamos em pé de guerra — descreve Gérbera, uma terapeuta marciana com quem Jota Ix se consulta como parte de um programa de adaptação ao novo mundo.

Gérbera conta que em tempos remotos, lá pelo século XXI, os marcianos viviam em paz. Não havia governo, poder, política, nada dessas ideias que os habitantes da Terra implantaram em Marte. Até o fenômeno das fake news, outra invenção terrena, deixou os marcianos perplexos, desorientados. Há muita tensão. Qualquer hora os dois lados partem para a briga. Até armas de destruição em massa os marcianos tiveram que criar para a defesa em caso de batalha.

Jota Ix habitualmente ouve essas coisas e sai da consulta com grande preocupação. Nunca teve dúvida de que o problema do universo é o homem. Foi o homem que tornou a Terra um ambiente inóspito, tóxico, insuportável. Ele queimou as florestas, poluiu os rios e os mares, intensificou o efeito estufa e a vida se tornou impossível. Muitos morreram devido ao calor e aos efeitos da poluição. Os sobreviventes desenvolveram tecnologias que permitiram a fuga para Marte. Agora, no novo planeta, a situação caminha para o caos novamente. Foi como se o homem apenas transportasse a tragédia de lugar.

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– Os marcianos temem os terráqueos — confessa Gérbera na próxima consulta.

O medo é tão intenso que, nas ruas das cidades de Marte, o terror compromete o cotidiano dos cidadãos. Grupos de terráqueos e marcianos habitualmente não se entendem e não é raro que as discórdias terminem em sopapos. Votos de boas-vindas, celebrados no início da imigração dos terráqueos, estão quebrados.

Como reflexo desse clima, as profissões que mais crescem em Marte são ligadas à terapia, psicologia, comportamentos de forma geral. Estressados, os indivíduos buscam socorro na especialidade de profissionais dessa área para se situarem e poderem tomar novos rumos na vida. Gérbera quase não tem mais horário de agenda e Jota Ix tem conseguido consulta só quinzenalmente, às quartas-feiras, perto da meia-noite.

Ele também está preocupadíssimo. Admite que já se arrependeu de vir para Marte. Mas também não podia ter ficado na Terra. Lá só havia ruínas. Toda a ideia de beleza, todo o vigor da criatividade, toda a força da natureza, tudo foi destruído. O homem transformou a Terra num lugar em permanente convulsão com tsunamis, terremotos, desertificação. Por falta de opção, foi necessário preferir a incerteza de Marte à morte certa na Terra.

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— E o que você pensa disso tudo? — perguntou Jota Ix a Gérbera na consulta mais recente.

— Sabe, eu não sei o que pensar — respondeu a bela terapeuta. — O pensamento também foi destruído. As fake news que vocês trouxeram para Marte destruíram toda a verdade. Num universo em que não há mais verdade, tudo é possível e nada mais tem sentido, é como se as criaturas estivessem condenadas a viver como baratas tontas.

— O jeito é ir para Vênus.

— Nem pense nisso. As criaturas de Vênus e de outros planetas, conhecendo os estragos que os humanos fizeram na Terra e em Marte, já estão construindo barreiras espaciais contra os planos de invasões dos terráqueos.

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