Outro Olhar

A peregrinação continua

Estar sem emprego é um trauma, uma anormalidade civil
A peregrinação continua
Ilustração: Lucas Araújo

Eram outros tempos, mas parece que foi ontem. Era o período de fevereiro a junho de 1980. Foram os meses em que vivi a experiência do desemprego. Quatro meses marcantes. Recordo aqueles dias com a amargura de um ex-combatente que ainda arquiva na memória os ferimentos de uma guerra perdida.

Estar sem emprego é um trauma, uma anormalidade civil. A situação é mais grave na medida em que a falta de salário causa danos também aos filhos, pais, irmãos.

Minha mãe era empregada doméstica. Meu pai, paciente de asma crônica, recebia pensão de salário mínimo pela doença. Era pedreiro e poceiro nos dias em que a asma lhe dava trégua. Eu tinha dois irmãos menores e uma prima, que meus pais trouxeram de Pernambuco porque a família dela passava fome e precisava de socorro.

Cada pessoa na família tinha o peso de uma unidade de gastos com alimentação, vestuário, escola, saúde, transporte, moradia. A casa original de dois cômodos, construídos no fundo do terreno, ganhou um quarto adicional. Os custos eram grandes. Ajudar no sustento da família era caso de emergência.

E era preciso conseguir logo um novo emprego. Todos os dias eu reunia uma fé que não sabia de onde tirava e partia para roteiros de bairros operários. Sem profissão, com a concorrência de outros desempregados, a luta por uma vaga no mercado de trabalho era uma prova de fogo. A carteira profissional de capa azul no bolso traseiro e outros documentos eram os instrumentos equivalentes a armas de ataque e de defesa numa luta inglória.

O dia começava com as consultas aos classificados de empregos publicados em jornais populares. Eu anotava uma média de três endereços de empresas que ofereciam vagas para ajudantes gerais e outras funções básicas, que não exigissem muita qualificação, e lá ia com força de vontade e nenhuma garantia de sucesso. Melhor ainda se a oferta de emprego dissesse “não exigimos experiência” ou “ensinamos o serviço”.

Na maioria das vezes não havia dinheiro para o trem ou o ônibus. Andar a pé era a mobilidade mais frequente. Muitos se arriscavam transpondo a linha do trem para acessar a plataforma sem ter que pagar a passagem. Havia risco de acidente, mas a economia da tarifa fazia a diferença que garantia o lanche no meio da jornada.

Eu começava a viagem na estação de Jandira e desembarcava em outra estação que estivesse localizada em lugares mais próximos dos endereços anotados. O roteiro tinha destino incerto. O destino podia ser Barueri, Osasco, São Paulo. Verificado o primeiro endereço, partia para outro local e geralmente esse novo percurso era feito a pé.

Nos caminhos, por ruas e avenidas de bairros operários como Vila Anastácio, Vila Leopoldina, Presidente Altino, eu encontrava outros desvalidos que, como eu, procuravam empregos. Trocávamos informações sobre vagas e empresas.

Foi assim que descobri uma indústria da Lapa que recrutava trabalhadores para obras de construção civil no Iraque. Havia outra empreiteira que abria estradas no deserto para o governo de Saddan Hussein. Por alguns dias a ideia de ter Bagdá como destino fervilhou na minha cabeça, mas não foi adiante.

Outras vezes, contávamos nossas histórias de fracassos no mercado de trabalho. Trabalhadores com filhos pequenos eram os que viviam dramas mais graves e emergentes. E não podíamos nos ajudar. O máximo que um conseguia desejar ao outro era boa sorte.

Acontecia às vezes de eu entrar numa empresa e haver cinquenta pessoas para uma única vaga. Nesses casos, eu desistia da concorrência e partia para outro endereço. Fé e confiança tinham limites.

Certa vez, entrei numa fila de candidatos a vagas de coladores de cartazes numa grande editora de São Paulo. Deveríamos cumprir roteiros de idas a bancas de jornais para colar cartazes de propaganda de revistas. Horas de espera depois, só restou a promessa de que a editora poderia entrar em contato. Era uma forma educada de a empresa dizer “não” ao sonho do emprego.

Havia desproporção entre a necessidade de trabalho e a indiferença dos que tinham o poder de mudar nossos destinos. E isso acontecia porque os interesses eram opostos. A empresa existia em função do lucro, enquanto que o candidato à vaga era um trabalhador pressionado pela necessidade de sobreviver e desesperado pela incerteza de como seria o amanhã. De quebra, para os governos, o desempregado era apenas estatística.

Eram outros tempos, outras peregrinações. As filas de desempregados dos dias de hoje — em plena revolução da internet — mostram que nada mudou em quase quarenta anos de história.

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