Outro Olhar

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Coluna "Outro Olhar", do jornalista Carlos Araújo
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Crédito da foto: Arte Lucas Araújo

Carlos Araújo – carlos.araujo@jornalcruzeiro.com .br

Numa cidade do sudeste, no fim da tarde de terça-feira, João Trwel atravessou a rua, percorreu o espaço do estacionamento vazio, empurrou a porta e entrou na livraria. Eram ele e uma única vendedora. Não havia mais ninguém no ambiente de corredores e prateleiras de livros. Era o último dia de abertura da única loja física de livraria existente no mundo.

João sentiu algo estranho. Estava triste e esse espírito tinha a ver com a sensação de despedida. Não havia mais leitores de publicações impressas. Todos tinham migrado para as plataformas digitais. João era o único ser que insistia na leitura de conteúdos impressos, mas sozinho era impossível sustentar um mercado. Os jornais impressos não existiam mais. Nesse ritmo, o mercado também previu o fim definitivo das livrarias. Esse dia tinha chegado agora.

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João curtia um vazio indescritível. Queria comprar os últimos livros, dois ou três volumes, talvez cinco, ou sete. Comprar livros era um hábito desde a infância. Assim como fazem os acumuladores compulsivos, ele juntava livros. Tinha quase sete mil volumes em casa. Eram as melhores obras, os melhores autores. Literatura e filosofia. Tudo sobre Kafka, Faulkner, Nietzsche, os autores mais queridos. Obras de Poe, Lovecraft, Lautréamont. Tinha em casa os autores e obras em diversidade e volume maiores do que podia encontrar em qualquer livraria. Leitura garantida para muitos anos.

Pegou dois livros de Hannah Arendt, “Homens em tempos sombrios” e “As origens do totalitarismo”. Viu uma nova edição de “É isto um homem?”, de Primo Levi. E tirou da prateleira uma edição em capa dura de “O alienista”, de Machado de Assis. Incluiu no conjunto o célebre “1984”, de George Orwell, e “O conto da aia”, de Margaret Atwood.

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Gostava de livros de ficção e filosofia distópicos porque eles lançavam alguma luz sobre os labirintos que levaram a humanidade à perdição nos últimos quarenta anos. O mundo tinha se transformado numa imensa Itaguaí, o ambiente da narrativa de “O alienista”. Machado de Assis era um visionário. E o sistema de vigilância nas mãos do poder para oprimir os cidadãos, criado por Orwel no seu livro clássico, era uma realidade explosiva.

Para quebrar o silêncio, João tentou puxar conversa com a vendedora a propósito do último suspiro da livraria. Mas ela o ignorou. As palavras são inúteis diante das mortes anunciadas.
Os leitores rejeitaram os livros impressos porque agora só querem animações eletrônicas, João pensou. A modernização gráfica foi insuficiente para competir com os celulares e os tablets. Ao eliminar tudo o que é de papel, a tecnologia executou o que Hitler não conseguiu com a queima de livros em praça pública, pensou.

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João se dirigiu ao caixa com os livros nas mãos. A vendedora fez as contas, ele pagou a despesa com cartão de débito e caminhou para a saída. Não olhou para trás, como faria num setor de embarque. Entrou como parte da estatística da ruína e desolação do novo mundo, já que era o último cliente da livraria e o último comprador de livro impresso do mundo.

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