Editorial

Zona Azul mais ou menos digital

Cruzeiro do Sul flagrou várias pessoas vendendo talões de estacionamento na região da central de Sorocaba sem licença ou autorização da Urbes

A reportagem do Cruzeiro do Sul flagrou na última segunda-feira várias pessoas vendendo talões de estacionamento na região da central de Sorocaba sem licença ou autorização da UrbesDesde o início de sua administração, o prefeito José Crespo (DEM) vem realizando um trabalho lento, mas importante no estacionamento regulamentado da cidade, a chamada Zona Azul. O serviço estava praticamente abandonado havia anos, mal sinalizado, sem fiscalização efetiva e ambiente ideal para a proliferação de flanelinhas que vendiam as fichas de estacionamento e, por uma boa caixinha, davam um jeito para que os carros ocupassem uma vaga durante o dia inteiro sem risco de multas.

Depois de dois anos, período em que foi ampliado o número de vagas, refeitas as sinalizações horizontais e verticais e aumentado o número de pontos de venda dos talões — e inúmeros adiamentos — a Urbes anunciou em novembro mais uma vez que o aplicativo, que possibilita a compra de crédito para uso de vagas de estacionamento rotativo, finalmente seria habilitado no início de dezembro. Chegou o mês de dezembro, quando o movimento na região central cresce bastante em função das compras de final de ano, e o aplicativo não foi liberado. De acordo com a empresa pública ocorreram problemas de ordem técnica que estariam sendo resolvidos pela empresa contratada. O sistema de pagamento por aplicativo não desativou o sistema de vendas de talões, disponíveis em cerca de 100 estabelecimentos, segundo a Urbes, mesmo porque nem todos os usuários das vagas têm habilidade para pagar o estacionamento por meio do celular.

No início de janeiro, finalmente o aplicativo Zona Azul Digital ficou disponível para smartphones, mas somente para aqueles que usam o sistema Android. A versão para aparelhos que usam o sistema IOS apresentou problemas e não foi disponibilizada para os usuários, uma precariedade tecnológica inexplicável.

É curioso que uma empresa que se apresenta como usuária e divulgadora de novas tecnologias encontre esse tipo de problema ao implantar um aplicativo já bastante conhecido em outras cidades. Em São Paulo, um sistema bastante semelhante está em operação desde meados de 2016 e gerencia mais de 38 mil vagas espalhadas por toda cidade. Em Jundiaí, cidade com porte semelhante ao de Sorocaba, o sistema digital funciona desde abril de 2017. O mesmo ocorre em várias outras cidades do interior do Estado.

O anúncio reiterado e nunca cumprido da entrada em funcionamento da Zona Azul Digital traz dúvidas para os usuários e favorece os espertalhões que esperam falhas como essa para faturar. A reportagem do Cruzeiro do Sul flagrou na última segunda-feira várias pessoas vendendo talões de estacionamento na região da central de Sorocaba sem licença ou autorização da Urbes. Os flanelinhas vendiam os talões a preços muito superiores ao valor determinado pela empresa pública e flagrou alguns homens vendendo pelo dobro do preço. A venda irregular de talões também estaria ocorrendo nas imediações do Conjunto Hospitalar de Sorocaba, onde recentemente foram criadas vagas de estacionamento regulamentado. Segundo alguns motoristas, os flanelinhas vendem os bilhetes por duas e até três vezes o valor estipulado pela Urbes. A empresa confirma que foi informada da venda irregular e realizou fiscalização, mas sem encontrar material com os flanelinhas. A venda irregular de talões pode ser punida com a apreensão dos talões ou cartões e os responsáveis podem ser multados em até 172 Unidades de Referência Fiscal. Em caso de reincidência esse valor pode dobrar. Cada Ufir vale pouco mais de um real.

Se não está se dando bem na aplicação do aplicativo de estacionamento, o mesmo não se pode dizer do WhatsApp Denúncia, por meio do qual a Urbes pode deslocar equipes de trânsito para multar motoristas após denúncias de cidadãos por meio digital. Apelidado de WhatsApp dedo-duro, ele recebeu em duas semanas de funcionamento, no início do mês passado, 529 denúncias e muitas delas se transformaram em multas. O uso da tecnologia para evitar abusos no trânsito e estacionamento irregular de veículos é válido, ajuda a diminuir acidentes e pode melhorar o trânsito. A mesma eficiência poderia ser utilizada para acertar o aplicativo da Zona Azul, evitando assim a abordagem inescrupulosa de pessoas vendendo as folhas de estacionamento pelo dobro do preço e deixando a população refém desses indivíduos enquanto a Prefeitura não resolve o problema.

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