Editorial

Volta às aulas é algo fundamental

Para especialistas em educação, ficar sem aula é arriscado e danoso para crianças e adolescentes

Devido aos posicionamentos diversos de prefeitos, dirigentes de ensino, professores, pais e alunos, a retomada das aulas presenciais no Estado de São Paulo tem sido um dos assuntos mais discutidos nas últimas semanas. E isso tende a se acentuar.

Inicialmente marcado para 1º de fevereiro na rede estadual, o retorno às aulas envolve interesses, vontades pessoais, temores e sobretudo desconhecimento. Alguns municípios, como as cidades do Grande ABC, chegaram a fazer assembleia entre os prefeitos da região para decidir pela retomada em 18 de fevereiro na rede privada e 1º de março na rede pública.

A decisão causou até uma reprimenda do secretário estadual da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, que vem há meses numa cruzada pela volta às aulas presenciais.

Segundo ele, o Estado está pronto para o retorno. Soares ameaçou até judicializar a questão caso os prefeitos não apresentem uma “justificativa epidemiológica” para não reabrir as escolas. A discussão promete ser longa.

Entretanto, há algo que não está em discussão: a volta às aulas é melhor do que o isolamento e a falta da escola no dia a dia das crianças e adolescentes. Essa é a conclusão de dezenas de especialistas em educação.

É o caso de Ítalo Dutra, chefe de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil. Segundo ele, apesar de sabermos que as crianças e os adolescentes se infectam menos e sofrem menos com os sintomas da Covid-19, elas são as vítimas invisíveis desta pandemia.

Mesmo com o esforço feito pelas escolas e secretarias para o incentivo e a implementação de atividades remotas, a adesão foi muito aquém do que deveria. Segundo a Pnad Covid, havia 4,9 milhões de crianças e adolescentes matriculados no começo de 2020 no País e que, durante a pandemia, não vinham recebendo atividades remotas.

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Para evitar o abandono escolar, foram feitas estratégias de aproximação entre professores e estudantes. Ainda assim, o resultado não foi suficiente. Na rede paulista, com cerca de 3,5 milhões de estudantes, mais de 500 mil alunos não entregaram nenhuma atividade, ou seja 15%.

O número real deve ser maior, evidentemente. São eles os que mais correm risco de abandonar os estudos. Se em 2018, sem pandemia, quase 1 milhão de crianças e adolescentes abandonou a escola no País, imaginem o cenário com uma pandemia que está perto de completar um ano.

A cada dia, o risco de abandono se agrava diante do fechamento prolongado das salas de aula no Brasil. É notório: uma vez que o jovem se desvencilha da escola, é muito difícil voltar. Ou seja, além das vidas ceifadas pela doença, a pandemia também vem causando um massacre educacional na vida de crianças e adolescentes. Ficar esse longo tempo sem escola pode causar um prejuízo para o resto da vida.

Tanto o retorno é infinitamente menos danoso às crianças que, em todos os países civilizados, como os europeus, uma das principais preocupações tem sido manter as escolas abertas e funcionando o máximo possível. Claro que para isso há uma série de medidas.

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A ciência e a saúde devem dizer como essa volta às aulas precisa ser feita com segurança. A professora Nina Ranieri, coordenadora da Cátedra Unesco de direito à educação da USP, destaca que a decisão se faz em benefício do melhor interesse da criança e do adolescente, direitos previstos por documentos internacionais e artigos da Constituição.

“A essa altura da pandemia já temos mais informações sobre transmissão, tratamento e o que devemos fazer. Está mais do que comprovado que a volta às aulas é melhor do que o isolamento”, diz.

E a preocupação não é apenas com a aprendizagem, mas também com uma série de situações como segurança alimentar, saúde mental e a maior exposição à violência doméstica das crianças ao longo de 2020. Para as crianças menores e especialmente para as pessoas mais vulneráveis, a escola é um instrumento de avanço social.

Todos os mais vulneráveis dependem da educação presencial. A escola é um espaço muito importante de proteção. Quantos professores já não salvaram crianças?

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Educação é direito da criança e dever do Estado, deve ser obrigatória dentro dos protocolos. Nada substitui a escola e isso talvez ainda não esteja claro para muitos pais. A ciência mostra que é possível transformar a escola em um ambiente seguro. As crianças não são grandes transmissores, não são o principal grupo de risco, mas são as mais afetadas por fazerem esse sacrifício de não ir à escola.

É compreensível que as pessoas tenham restrições, objeções e medos. Mas é igualmente importante lembrarmos de todos os setores, essenciais ou não, que seguem sua rotina. Foram aprendendo com a doença, foram se adequando ao cenário de pandemia, foram tomando os cuidados possíveis e necessários e seguem com sua atividade. Afinal, a vida não pode simplesmente parar. O mesmo acontece com a educação e as escolas.

O que é essencial para a sociedade não tem de fechar. Professor, funcionário da educação, tem papel fundamental, precisa ser valorizado e observado cada vez mais como fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

Portanto, o desafio de todos os envolvidos é resgatar alunos que perderam o vínculo com os estudos e dar àqueles que não têm acesso uma chance de aprender.

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