Editorial

Uma história de 78 anos

É preocupante a situação da área antes ocupada pelo Aeroclube, local que deu origem ao atual aeroporto

Na semana passada o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) iniciou um procedimento para levantar a situação em que se encontra o próprio público onde funcionou durante décadas o Aeroclube de Sorocaba. O documento se baseia no fato de a entidade ser tradicional e que faz parte do patrimônio histórico da cidade.

O MP-SP quer identificar eventuais responsáveis pelo risco ao patrimônio histórico e cultural da entidade desde que foi cumprida uma ação de reintegração de posse por parte da Prefeitura. Também está em tramitação um processo de tombamento do local pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico de Sorocaba (CMDP).

É preocupante a situação da área antes ocupada pelo Aeroclube, local que deu origem ao atual aeroporto e de todo o polo de manutenção de aeronaves instalado na cidade, uma atividade econômica expressiva e que emprega centenas de pessoas altamente qualificadas.

O hangar original do Aeroclube, por exemplo, foi projetado pelo engenheiro Alexandre Albuquerque, da Escola Politécnica da USP, e ficou conhecido como a construção com o maior vão livre daquela época: 25 metros. Em mais de uma ocasião este jornal noticiou ações de vandalismo e ocupações irregulares na área. Em novembro do ano passado noticiou que a área pertencente à Prefeitura estava sendo ocupada por aeronaves particulares.

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No dia 16 de novembro pelo menos sete aviões de pequeno porte estavam estacionados na área, uma situação comum nos últimos meses do ano passado. A suspeita era que as aeronaves estavam paradas nesse local para evitar ter de pagar taxas para o Estado, proprietária do aeroporto que é gerenciado pelo Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp).

O antigo prédio da administração da entidade também foi alvo, em mais de uma ocasião, de furtos e atos de vandalismo e chegou a ser ocupado por um período por pessoas em situação de rua. Sabe-se que no final do ano passado uma câmara frigorífica e um aparelho de ar-condicionado haviam sumido do prédio.

Esses e outros aparelhos foram deixados no prédio quando o Aeroclube de Sorocaba foi obrigado a desocupar as instalações após o vencimento do prazo de concessão.

Mas o que mais preocupa antigos associados do Aeroclube, ex-alunos e ex-instrutores do curso de pilotos, que foi um dos mais bem-conceituados do Estado, é o desaparecimento de fato de uma entidade com uma história rica e que projetou dezenas de ex-alunos na área da aviação comercial e militar.

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O Aeroclube de Sorocaba, assim como muitos outros do País, foi fundado durante a Segunda Guerra Mundial. O magnata das comunicações da época, Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários e Emissoras Associados, conglomerado de jornais de vários Estados brasileiros, revistas de circulação nacional e inúmeras emissoras de rádio, promoveu uma campanha para a construção de aeroclubes nas cidades brasileiras e doações para a compra de aviões que seriam usados para a formação de pilotos.

O Aeroclube de Sorocaba foi fundado em 1942 em terreno doado por Frederico Adolfo Schleifer e contou com o apoio de empresários da cidade. O primeiro avião, um Piper, de fabricação norte-americana, foi doado pelo empresário Valentim Bouças.

No início era um campo de aviação de chão batido e um hangar, o embrião do Aeroporto Bertran Luiz Leupolz, um dos mais movimentados do Estado em número de pousos e decolagens, e um dos maiores polos de manutenção de aviões executivos do país, com oficinas dos maiores fabricantes dessas aeronaves do mundo.

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Uma série de problemas administrativos, possivelmente por conta da má gestão e desentendimento entre grupos de associados, levaram a entidade a uma situação insustentável. Com isso o Aeroclube se afundou em dívidas e os poucos aviões que dispunha para aulas foram sucateados e os cursos cancelados. A pá de cal foi o fim da concessão das áreas, prédios e hangares, quando a entidade teve que deixar sua sede por conta de uma reintegração de posse.

Uma história rica e que gerou tantos frutos não pode terminar dessa maneira. É preciso que sócios e ex-sócios do Aeroclube, Prefeitura, Daesp e entidades representativas como Associação Comercial, Ciesp iniciem conversações para a recuperação ou recriação da entidade. Muitos entusiastas da aviação têm se manifestado sobre o assunto e a cidade tem uma dívida histórica com a entidade que tantos serviços prestou à comunidade e à nação.

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