Editorial Opinião

Uma guarita na praça

A pequena edificação está sendo erguida praticamente em frente à Catedral Metropolitana de Sorocaba, uma das construções mais bonitas da cidade

A Prefeitura de Sorocaba iniciou nos últimos dias do ano passado a construção de uma espécie de guarita para a Guarda Civil Municipal na praça Coronel Fernando Prestes. Em uma nota curta distribuída à imprensa na última quinta-feira, a Secom informou que a construção servirá como posto fixo para a GCM. O posto terá três metros quadrados e funcionará 24 horas por dia para dar segurança aos moradores do centro, lojistas e consumidores. Embora a ideia de levar segurança à população na região central por meio de uma guarita minúscula seja discutível, o local escolhido para a sua edificação não poderia ser pior. A pequena edificação está sendo erguida praticamente em frente à Catedral Metropolitana de Sorocaba, uma das construções mais bonitas da cidade.

Não resta dúvida que Sorocaba precisa de mais segurança na região central. Na atualidade, atravessar a praça Coronel Fernando Prestes e caminhar pelo bulevar Braguinha durante a noite, por exemplo, exige muita coragem diante do número de usuários de drogas e desocupados que perambulam pelo local. Mas o ponto escolhido para a pequena construção é absolutamente inapropriado. A existência de um posto fixo da GCM na praça, com pelo menos dois guardas mesmo que 24 horas por dia, não garantirá a segurança daquela parte do Centro, nem afugentará moradores de rua que têm especial predileção por se instalar na praça central da cidade.

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Entra ano e sai ano e, apesar das promessas, o sorocabano assiste à decadência de seu patrimônio histórico, das edificações que se tornaram referência na cidade e que não são restauradas. É assim com o Palacete Scarpa, cuja restauração começou em novembro de 2017, quatro anos após o previsto e ainda não foi finalizada. O mesmo acontece com o casarão que abriga o Museu Histórico Sorocabano, no interior do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, um dos cartões postais da cidade e que precisa de urgente restauração. Também está em situação crítica o entorno da Capela do Divino Espírito Santo, construída durante o ciclo do Tropeirismo, em 1883. Há mato e sujeira por todo lado ao redor de um local que poderia ser um ponto turístico. Também em péssima situação se encontra o prédio do Fórum Velho, na praça Frei Baraúna, aguardando reforma que já foi anunciada, mas que não começa nunca. Poucas são as edificações com reconhecido valor histórico bem preservadas em Sorocaba. Na região central a exceção é o antigo Teatro São Raphael, hoje sede da Fundec, que o mantém bem conservado e com suas características externas originais.

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Esse conceito de base fixa para policiamento já foi tentado em Sorocaba na década de 1970. Um acordo entre a administração municipal da época e a Polícia Militar permitiu a construção de vários postos fixos de policiamento, geralmente erguidos em praças, como na praça do Truco, na Vila Progresso, na pracinha que dá acesso à rua Luiz Mendes de Almeida, no Cerrado, entre outras. Talvez o último remanescente dessas unidades fixas ainda em pé seja a existente ao lado da estação rodoviária. Na prática, esses postos se tornaram problemáticos. A PM precisava deixar pelo menos dois policiais em cada unidade e uma viatura. Quando havia necessidade de deslocamento por conta de uma emergência o local ficava desguarnecido, ou se deslocavam mais policiais. Fazendo as contas, descobriu-se que para manter os postos em funcionamento, mesmo que em horário comercial, seria necessário um grande número de policiais, que teriam que ser deslocados do policiamento das ruas. Por esse motivo é válida a sugestão do empresário Sérgio Reze, presidente da Associação Comercial de Sorocaba. Ele acha mais viável a utilização de uma base móvel, uma espécie de van, que faria o mesmo papel da guarita e não interferiria na arquitetura daquela área.

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Essa intervenção pouco inteligente na arquitetura urbanística da principal praça da cidade ocorre quando o prefeito José Crespo (DEM) inicia a metade final de seu mandato. Em menos de dois anos teremos novas eleições. No último pleito, o recado da população foi claro aos políticos que não cumpriram suas promessas ou ignoraram os anseios da população. Se houver vontade política, ainda dá tempo de afinar as realizações com as aspirações do povo sorocabano.

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