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Um presente para a cidade

06 de Março de 2020 às 00:01

O 66º aniversário do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS) não poderia ser melhor celebrado do que com a exposição “200 anos da viagem de Spix & Martius”, que reúne registros da expedição de dois naturalistas europeus, que cruzaram o Brasil entre 1817 e 1820, do Rio de Janeiro à Amazônia. A expedição revelou ao mundo as riquezas naturais, as paisagens exóticas e as características do homem que habitava o país no final do século 19.

Essa mostra, de grande interesse para quem aprecia a história brasileira, já foi montada em importantes centros de cultura do país nos últimos anos e chega a Sorocaba por conta de uma parceria entre o IHGGS, o Instituto Martins-Staden e a Prefeitura de Sorocaba.

A mostra reúne 21 painéis com textos e imagens coloridas que apresentam detalhes sobre o Brasil do século 19, colhidos na impressionante viagem dos naturalistas alemães Carl Friedrich Philippvon Martius e Johann Baptist von Spix pelo território brasileiro no final de seu período colonial.

O legado da expedição dos dois pesquisadores é fantástico. Mostra a realidade brasileira do século 19, principalmente sua natureza exuberante e populações indígenas, vista por dois pesquisadores europeus que fizeram relatos e ilustrações detalhadíssimas levando à Europa suas impressões sobre aquele pouco conhecido país chamado Brasil. Spix e Martius passaram para a história como dois dos mais importantes “viajantes” que mostraram a realidade brasileira para o mundo.

Assinaram uma espécie de carta de apresentação do Brasil aos europeus. O relato pode ser considerado o livro mais importante em língua alemã sobre nosso país. Viajantes é como ficaram conhecidos pesquisadores e cientistas que visitaram o Brasil durante o Império fazendo pesquisas e elaborando relatos sobre o que viam.

É bom lembrar que durante o período colonial o governo português não via com bons olhos a presença de pesquisadores estrangeiros no território brasileiro, muito menos seus relatos, pois poderiam atrair o interesse de outros países para as riquezas naturais, como já havia ocorrido com franceses e holandeses que tentaram se fixar em algumas regiões do litoral do Brasil.

Um dos maiores pesquisadores do século 19, Alexandre von Humboldt, por exemplo, que percorreu boa parte da América espanhola, foi impedido de entrar no Brasil. A situação só mudou a partir de 1808 quando a família real, fugindo dos avanços de Napoleão na península Ibérica, se transferiu para o Brasil e aqui se estabeleceu. A partir dessa data, a contribuição de estudiosos estrangeiros passou a ser considerada vantajosa pelo governo.

Foi nesse contexto que, em 1817, os dois naturalistas chegaram ao Brasil com a Missão Austríaca, uma comitiva de cientistas austríacos e bávaros que foi convidada a vir para o Brasil acompanhando a imperatriz Leopoldina, que desembarcou no Rio de Janeiro para casar com o príncipe D. Pedro.

A expedição percorreu diversas regiões do Brasil. começou pelo Rio de Janeiro e seguiu para Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão e Belém, de onde subiu o rio Amazonas. A expedição, que durou três anos, reuniu um acervo fantástico composto por aproximadamente 20 mil exsicatas (amostras de plantas prensadas e secas em estufa) com cerca de 6 mil espécies de plantas, inúmeras espécimes zoológicos e uma grande coleção de artefatos indígenas.

Mas os cientistas não se limitaram a colher amostras e fazer observações nos campos específicos da zoologia e da botânica, suas especialidades como pesquisadores. O material recolhido nos milhares de quilômetros percorridos em lombo de mula ou barcos em território brasileiro também traz informações importantes sobre geografia física e humana, atividades econômicas, história e sobre seus habitantes, seus usos, costumes e vida social. Uma complexa e rica radiografia do Brasil daquela época.

A maneira como registraram a fitogeografia brasileira transformou os dois naturalistas em pioneiros na definição de biomas da Mata Atlântica, da Caatinga e do Cerrado, que formam, junto com a Floresta Amazônica, os Pampas e o Pantanal os seis grandes biomas nacionais.

Após visitar Minas Gerais, a dupla de cientistas chegou a alertar sobre os perigos da mineração excessiva naquela região e sobre a necessidade de se preservar o Cerrado. Um alerta que faz todo o sentido após as recentes tragédias com o rompimento de reservatórios de rejeitos em Mariana e Brumadinho.

A exposição é um presente que a instituição fundada pelo ilustre Monsenhor Luís Castanho de Almeida, o historiador que assinava suas obras como Aluísio de Almeida, oferece aos sorocabanos. A mostra ficará aberta ao público até o dia 31, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, com entrada gratuita.