Editorial

Tragédia anunciada

Medidas precisam ser tomadas urgentemente, antes que o número de mortos e feridos aumente ainda mais

Na última sexta-feira a cena voltou a se repetir. O dia ainda não tinha clareado quando vários veículos se envolveram em um engavetamento nas proximidades do km 98 da pista expressa da rodovia Raposo Tavares.

Ao todo,16 veículos se envolveram no acidente que ocorreu antes das 5h e teria começado com a colisão entre um caminhão e uma picape que entrou na frente do veículo pesado e foi arrastada por vários metros.

Na sequência, foram ocorrendo as colisões, pois o local do acidente fica logo depois de um declive forte. Quatro pessoas morreram no local, outras duas em estado grave foram levadas ao pronto-socorro do CHS e 45 outras receberam ferimentos leves, mas precisaram de atendimento.

Entre os mortos estão o motorista de um caminhão carregado de verduras, o motorista de outro caminhão carregado com batatas e dois ocupantes de uma van, que foi prensada entre um caminhão e um ônibus. Um motorista conseguiu sair do carro, mas acabou caindo do viaduto.

Como acontece nesses grandes acidentes, a rodovia ficou bloqueada por quase cinco horas no sentido interior-Capital nas proximidades do Shopping Panorâmico, provocando congestionamentos e problemas no trânsito que estão entrando na rotina de quem se utiliza da rodovia.

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Um mês atrás, naquele mesmo ponto, ocorreu outra sequência de colisões envolveu dez veículos. Naquela ocasião, duas pessoas receberam ferimentos graves e outras 43 sofreram ferimentos considerados leves. Mas esses não foram os únicos acidentes registrados naquele ponto da Raposo Tavares.

Segundo levantamento divulgado pela própria concessionária, a ViaOeste, esse mesmo trecho registrou outros 21 acidentes entre 2015 e 2019. Foram dois acidentes em 2015, três em 2016, nove em 2017 e três em 2018. No ano passado foram quatro acidentes naquele local e este ano já registra dois casos.

O local onde ocorreram dois grandes engavetamentos em menos de um mês é um dos trechos mais perigosos da Raposo Tavares em Sorocaba. Existe ali um declive acentuado onde a velocidade máxima permitida para veículos leves cai de 110 km/h para 90 km/h, sinalização nem sempre obedecida pelos motoristas.

No acidente da última sexta-feira bastou uma colisão sem muita gravidade, para dar início ao engavetamento. Por conta do declive, veículos pesados como caminhões e carretas carregados dificilmente conseguem parar em uma distância curta.

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Esse local é perigoso, mas não é o único de alto risco no trecho da Raposo que corta a malha urbana de Sorocaba, que vai do km 92 ao 106. Há inúmeros locais problemáticos, apontados em várias reportagens deste jornal, que precisam ser solucionados.

A ViaOeste tem razão ao informar que foram feitos investimentos nesse trecho ao longo dos 21 anos de concessão. A rodovia foi inicialmente duplicada e, mais tarde, foram criadas as avenidas marginais, numa tentativa de separar o trânsito entre bairros daquele intermunicipal, feito por meio das pistas expressas.

Mas a concessionária e a Secretaria dos Transportes não podem se esquecer que a duplicação da rodovia até Araçoiaba da Serra já estava prevista quando foi feita a concessão em 1997 e em troca a empresa iniciou a exploração das praças de pedágios do complexo Castelo Branco/Raposo Tavares.

A construção das marginais ocorreu por absoluta necessidade diante do crescimento vertiginoso do trânsito nessa rodovia e pelos inúmeros acidentes que ocorriam, como agora.

Após a morte de quatro pessoas no acidente da última sexta-feira a prefeita Jaqueline Coutinho decretou luto oficial no município e solicitou levantamento junto ao Samu para saber quantos acidentes foram atendidos nesse trecho da rodovia nos últimos meses Determinou ainda que a Secretaria de Relações Institucionais questione a concessionária CCR/ViaOeste, a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) cobrando providências para diminuir o risco naquele trecho.

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O deputado federal Capitão Guilherme Derrite (PP) informou que pretende conversar com o secretário de Transportes sobre o assunto e conclamou os outros parlamentares que representam a região a fazer o mesmo.

Ele tem razão. Somente um trabalho conjunto dos deputados e prefeitos da região poderá resultar em melhorias para a rodovia.

Diante dessa sequência de acidentes e mortes em um mesmo trecho de uma rodovia, é muito estranho que nenhuma providência tenha sido tomada até agora.

Só mesmo um profundo desinteresse pela segurança de quem trafega pela rodovia pode explicar tal falta de providências. Já passou da hora da criação de projetos que tragam mais segurança para a Raposo Tavares.

Medidas precisam ser tomadas urgentemente, antes que o número de mortos e feridos aumente ainda mais.

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