fbpx
Editorial

Tráfico silencioso

Segundo a ONU, o tráfico de pessoas é a 3ª atividade criminosa mais rentável do planeta
Crédito da foto: Pixabay

O tráfico de pessoas, principalmente de mulheres, parece uma realidade distante para a maioria dos brasileiros, coisa de novelas ou romances. Na verdade, esse tipo de crime muitas vezes é praticado ao nosso redor, sem que a maioria das pessoas se dê conta do que está acontecendo. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o tráfico de pessoas é a terceira atividade criminosa mais rentável do planeta, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas, atividades com as quais muitas vezes mantém estreito relacionamento.

O mais comum, de acordo com os registros policiais, é o tráfico de mulheres ou meninas para exploração sexual, mas há também outros tipos de tráfico destinados à exploração da força de trabalho, para transporte de drogas, para a retirada de órgãos, tecidos e cabelos e até para o uso da chamada “barriga de aluguel”. Segundo entidades internacionais que se debruçam sobre o tema, a movimentação financeira em torno desse tipo de crime move fortunas. Em 2015, por exemplo, um dos últimos dados disponíveis, movimentou mais de 31 bilhões de dólares e é apontada como a atividade criminosa que mais cresce na atualidade.

Leia mais  Corrigindo abusos

Foi para falar sobre esse tema pouco conhecido e aparentemente distante do nosso cotidiano que esteve em Sorocaba na semana passada a diretora-executiva da Associação Mulheres pela Paz, Vera Vieira, que participou de um painel público sobre o tema no auditório da Secretaria de Igualdade e Assistência Social. A especialista, que deu entrevista ao Cruzeiro reproduzida na editoria Mix de ontem, falou sobre os vários tipos de aliciamento, que vão da coação física pura e simples ao uso de promessas falsas de casamento, adoção e, principalmente, trabalho. Vera Vieira lembra que o pesadelo começa quando a realidade se revela distante das promessas que podem ser oportunidade de estudo em uma cidade grande para a menina que mora no interior, que se transforma em servidão doméstica, ou um emprego bem remunerado na Europa, que na realidade está relacionado à prostituição. Depois do aliciamento, as organizações criminosas se utilizam de ameaças, apreensão de documentos, dívidas forçadas e até cárcere privado para manter as vítimas em situação de exploração.

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) divulgou recentemente em Nova York um Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas. Ele mostra um número recorde de casos detectados em 2016 — o levantamento mais atualizado — e também a maior taxa já registrada de condenação de traficantes. O relatório foi realizado, segundo os dirigentes da instituição, para que se possa avaliar corretamente quem são as vítimas e quem está cometendo esse tipo de crime. Em 2003, relatório semelhante mostrou que 20 mil casos foram registrados naquele ano, enquanto que o número subiu para mais de 25 mil em 2016. Mas apesar da melhora na coleta de dados, a impunidade ainda prevalece. O relatório da ONU mostra ainda que mulheres e meninas continuam sendo o principal alvo do tráfico e a grande maioria das vítimas é destinada à exploração sexual. Descobriu também que 35% das vítimas de tráfico para trabalho forçado são do sexo feminino. O estudo conseguiu montar um mapa mostrando que a maioria das vítimas, especialmente nas Américas, Europa, Leste da Ásia e Pacífico, é destinada à exploração sexual, enquanto que a maior parte das vítimas da África Subsaariana e no Oriente Médio é destinada ao trabalho forçado. Foram detectados também tráfico para exploração da mendicância ou para a produção de material pornográfico, em diferentes partes do mundo.

Leia mais  Crimes ambientais

Há, portanto, uma grande necessidade de prevenção desse tipo de crime, principalmente por meio do esclarecimento da população. Especialistas dizem que é preciso desconfiar sempre de grandes oportunidades de trabalho, adoção ou mesmo casamento. Promessas atrativas demais podem ser argumentos falsos dos aliciadores e eles agem cada vez mais no Brasil.

Comentários

CLASSICRUZEIRO