Editorial

Todos contra o crime organizado

Golpe do motoboy, pirataria digital, clonagens de cartões de crédito e de contas de Whatsapp, falsos representantes do Unicef recolhendo doações milionárias, falsificações de tudo o que se possa imaginar, até — acredite ou não — roubo do estoque inteiro de uma concessionária de carros de luxo. Isso, sem falar do corriqueiro tráfico de drogas cruzando diuturnamente um sem-número de trajetos por terra e por ar. Basta uma pesquisa rápida no site do jornal Cruzeiro do Sul (https://www.jornalcruzeiro.com.br/) para comprovar o bombardeio ininterrupto de ações da bandidagem “profissional” em todos os recantos do País, inclusive em nossa região.

Cada vez mais bem estruturado, planejado, armado, tecnificado, criativo e audacioso, o crime organizado faz jus à denominação. Isso ocorre na medida em que facções tradicionais e grupos independentes procedem como verdadeiras empresas — cuja capilaridade cresce sob a configuração legal da sociedade –, obedecendo à rígida disciplina do ganho com o menor custo e na máxima velocidade. Seus membros são exegetas do desrespeito à lei e da violência.

Na outra ponta dessa equação historicamente desproporcional, a Nação, resignada a sobreviver perigosamente, sempre um passo atrás dos malfeitores, carece, inadiavelmente, trocar a mera reação pela proatividade, sob a pena de perder definitivamente o controle. Para garantir a mínima segurança aos cidadãos, a cúpula governamental depende de informações rápidas e precisas, coordenação, competência, prover o bom uso de recursos e, principalmente, aquilo que parece sobrar aos criminosos de carreira: organização. A despeito da eficiência e da sensatez no cumprimento do dever, a linha de frente contra o crime é subordinada, entre outras adversidades, à hierarquia, aos baixos salários, à falta de equipamentos — e/ou obsoletos — e às nem sempre racionais regras do jogo, especialmente à legislação falha. Não é raro que o preço pelo enfrentamento ao delito seja a vida.

Leia mais  Um exemplo que precisa ser imitado

Lamentavelmente, a situação vivenciada nos dias atuais não passa de um triste e injustificável déjà vu. O despreparo recorrente para lidar com a criminalidade mostra que, pelo menos no que se refere à segurança pública, os mandatários brasileiros não têm sido capazes de aprender com os próprios erros. Confirmações desse fato podem ser encontradas sem muita perda de tempo folheando o acervo digital do Cruzeiro do Sul. Em 117 anos de acompanhamento da história sorocabana e mundial, o jornal dedicou inúmeras páginas a essa questão. Um século atrás, no dia 11 de fevereiro de 1921, por exemplo, o delegado regional de Polícia, Bráulio Mendonça Filho, após um longo e detalhado relatório das atividades da equipe local durante os 12 meses do ano anterior, apresentou ao secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Francisco Cardoso Ribeiro, um levantamento das deficiências que faziam parte do dia a dia dos policiais sorocabanos.

Afora a precariedade do armamento e dos equipamentos sem a devida manutenção, o delegado alertou o seu chefe para a necessidade de mais profissionais e melhores salários. “São as mesmas referências aludidas no relatório do ano passado”, lamentou o dr. Bráulio. “Composto por 40 homens, mas quase sempre incompleto, precisaria ser elevado ao número de 50 para atender às crescentes necessidades”, justificou. Problema mais grave era enfrentado na carceragem. “Tomo a liberdade de chamar a atenção para a situação dos carcereiros. Provavelmente devido à má remuneração que recebem nas funções do cargo, é o mesmo exercido por indivíduos sem as qualidades morais necessárias. E esta delegacia vê-se constantemente em dificuldades para conseguir um cidadão que queira exercer com a atual remuneração o cargo de carcereiro”, relatou. A estrutura física disponibilizada à polícia era igualmente precária: “Com relação a este edifício [cadeia pública] tenho a declarar a V. Excia. que ele deixa muito a desejar. Renovo neste relatório as mesmas observações a que aludi no ano passado. Além de possuir prisões insuficientes para o número crescente de presos que contém, os requisitos de segurança que oferece são precários”, reclamou, justificando que se tratava de “um prédio velho e feito de taipa, sujeito facilmente a qualquer perfuração. As suas janelas são muito baixas, dando quase todas para as ruas que circundam o prédio”. Além disso, o espaço da cadeia era dividido entre os presos comuns e “um grande número de dementes maltrapilhos, num cômodo sem iluminação, água ou camas”.

Leia mais  Fura-filas na mira das multas e do MP

Como se depreende, o cenário mudou, mas as carências da segurança pública se mantêm. O diferencial se restringe às características dos novos tempos. Além de tecnologia e armamentos potentes para fazer frente às organizações dedicadas ao tráfico de drogas e aos assaltos às instituições bancárias — ponta do iceberg, apenas para ilustração –, já está mais do que na hora de implantar um serviço de inteligência de abrangência nacional. Assim como tropas dos Estados Unidos se beneficiam do trabalho da central de inteligência americana para antecipar os passos de grupos terroristas internacionais, as polícias do Brasil precisam de conhecimento para agir contra o crime organizado. Lideranças policiais alertam há década que os traficantes de armas e drogas criaram um ciclo de enriquecimento e poder alheio ao estado de direito. Reverter a situação exige planejamento, trabalho conjunto e coordenado, ocupar os espaços em que as forças proliferam, combater a corrupção, retomar o controle sobre os presídios e, claro, armamento à altura.

Com relação a esse último item, o Cruzeiro publicou duas iniciativas recentes. Isoladas, mas que convergem para o objetivo primário. O governo de São Paulo adquiriu 2,5 mil câmeras corporais para a Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Segurança Urbana de Sorocaba (Sesu) recebeu 79 pistolas Glock G25, calibre 380. Fica a expectativa de que esses sejam apenas os movimentos iniciais da já tão postergada guerra à indústria do crime.

Comentários