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Todo dia é dia

03 de Outubro de 2018 às 09:34

Na tarde da última segunda-feira, o juiz federal Sérgio Moro decidiu retirar o sigilo de parte do acordo de delação premiada que Antonio Palocci -- uma liderança histórica do Partido dos Trabalhadores e ex-ministro dos governos Lula e Dilma -- fez para a Polícia Federal em abril deste ano. O ex-ministro está preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde o mês de setembro de 2016, mesmo local onde está preso o ex-presidente Lula e já foi condenado na Operação Lava Jato a uma pena de 12 anos e dois meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Muitas das denúncias reveladas esta semana não chegam a ser novidade, pois já surgiram de maneira fragmentada em vários depoimentos de envolvidos no Petrolão que, junto com o Mensalão e desvios de recursos do BNDES, formam o maior escândalo de corrupção que se tem notícia no País. O PT não inventou a corrupção, uma prática nefasta que se perde na história do Brasil, mas se o depoimento traz poucos fatos novos, a riqueza de detalhes das tramas registradas nos bastidores de Brasília, das quais Palocci foi personagem atuante e observador privilegiado, revela uma azeitada máquina de roubar dinheiro público. Causa náuseas e indignação. Daqui a alguns anos, quando nossos filhos e netos estudarem esse episódio da história brasileira contemporânea ficará patente que houve um período em que as mais altas autoridades chafurdaram na lama do roubo e da corrupção. Será uma vergonha de dimensões históricas.

Palocci, que fez parte da cúpula do partido e esteve no núcleo duro dos dois governantes, sabe o que está falando. Em resumo, em seu depoimento ele descreve com detalhes que a maior parte das doações oficiais de empresas que as campanhas petistas receberam foi propina. Diz que Lula fingia surpresa ao ser informado das irregularidades na Petrobras, embora todos os desmandos tivessem sua autorização e que os envolvidos haviam sido nomeados por ele. Palocci revela que 3% do valor dos contratos de publicidade da Petrobras -- um dos maiores anunciantes do País -- eram desviados para o caixa do PT e que em uma reunião da qual estavam presentes Lula, Dilma e Sérgio Gabrielli, presidente da empresa à época e hoje coordenador de campanha de Fernando Haddad, foi acertado o recolhimento de propina gigantesca por meio da construção de sondas para o pré-sal. Revela ainda que um grupo de emedebistas formado pelo ex-deputado Eduardo Cunha, pelo ex-ministro Henrique Eduardo Alves e pelo atual presidente Michel Temer superfaturaram um contrato da Petrobras no valor de US$ 800 milhões para poder faturar 5% desse valor. Falando como quem fez parte do esquema, Palocci revelou ainda que 90% das medidas provisórias editadas durante os governos petistas foram feitas sob encomenda para atender interesses de empresas e setores econômicos, que depois pagavam os políticos.

De uma forma ou de outra, às vezes de maneira fragmentada, essas informações já haviam circulado. Reunidas em um único depoimento feito justamente por um dos arquitetos do propinoduto, são estarrecedoras. Mostram a corrupção aplicada em grau absoluto para drenar recursos do Estado em beneficio de um grupo de pessoas e partidos. Não importa se faltam escolas e nos hospitais pacientes são atendidos nos corredores; não importa se a maior empresa pública do país quase foi à bancarrota. O importante para esse grupo de pessoas, é um projeto político que tem como objetivo final a permanência no poder e as benesses que ele proporciona.

Há quem questione a oportunidade da divulgação desse depoimento às vésperas da eleição, assim como há quem veja ativismo político na permissão dada pelo ministro Lewandowisk para que um jornal entreviste o ex-presidente Lula no cárcere, abrindo uma brecha para que outros veículos reivindiquem o mesmo direito. Provavelmente foi pelos mesmos motivos que levaram o MP de São Paulo a apresentar ação de improbidade contra Alckmin por caixa dois da Odebrecht dias atrás e a condenação, em primeira instância, do candidato tucano do governo paulista João Doria por ter usado o símbolo do projeto “SP Cidade Linda” em ações da prefeitura paulistana. Ou seja, não há data certa para o combate à corrupção, que deve ser contínuo e implacável. Toda data é válida para atacar essa praga que envergonha o País.