Editorial

Surto de notícias falsas

O surto do novo coronavírus está apenas começando fora da China

Teve grande repercussão a notícia de que uma criança com menos de 1 ano de idade, que chegou com a família a Porto Feliz há menos de um mês, vinda de Hong Kong, apresentava os sintomas do novo coronavírus, doença responsável pela epidemia que tem como epicentro a província chinesa de Hubei, mais especificamente sua capital, Wuhan.

A informação de que a criança passou por um hospital de Sorocaba também levou muitos leitores a temerem pela presença do vírus na cidade, dando origem a boatos infundados e notícias falsas.

O fato é que a criança está sendo acompanhada pela Vigilância Epidemiológica e Sanitária de Porto Feliz e aguarda o resultado do exame que foi enviado para o Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, um dos três laboratórios autorizados para examinar os casos suspeitos no Brasil, que poderá confirmar ou descartar o coronavírus na Região Metropolitana de Sorocaba.

A criança, segundo o coordenador da Vigilância Sanitária do município vizinho, começou a apresentar alguns sintomas leves como febre e coriza. Se a família não tivesse vindo da China, seria mais um caso corriqueiro de gripe ou resfriado. A criança está em isolamento domiciliar e a Secretaria da Saúde de Porto Feliz orientou todo o núcleo familiar da criança e monitora todas as pessoas que tiveram contato com o bebê.

Os especialistas em doenças infecciosas são categóricos: o surto do novo coronavírus está apenas começando fora da China. Para a OMS é praticamente certo que a doença vai se espalhar pelo mundo, só não se sabe exatamente em que grau de intensidade.

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Mas praticamente todos os países já estão se preparando para enfrentar uma possível epidemia. São vários casos suspeitos no Brasil e todos estão sendo monitorados pelas autoridades sanitárias. No Estado de São Paulo são três casos suspeitos da doença, incluindo o da criança de Porto Feliz, e no Brasil, o número baixou para seis.

Por sinal, agiu corretamente o governo brasileiro em manter em completo isolamento todos os cidadãos brasileiros trazidos da China por um período de 18 dias, inclusive os profissionais da saúde que participaram da retirada desse pessoal do território chinês. Assim ninguém poderá alegar que os voos de resgate podem ter trazido também o vírus para o Brasil.

Na China, epicentro de epidemia, o governo adotou um novo critério de diagnóstico para o vírus, que fez o número de mortos saltar para 1.350 na última quarta-feira, com mais de 60 mil casos diagnosticados. Mas é também da China que chegam notícias positivas com relação à doença.

De acordo com o governo chinês, o vírus atingiu seu auge no país e a previsão é de que a epidemia termina no mês de abril, com base em diferentes cálculos, embora o surto só esteja começando em outras localidades para onde o vírus foi levado. Enquanto isso, cientistas trabalham para produzir uma vacina contra a doença.

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Além de combate ao vírus, abre-se outro campo de batalha, este para combater os preconceitos e as notícias falsas. Por iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) a doença foi batizada de Covid-19. Essa nomenclatura segue diretrizes internacionais para evitar referências geográficas, a um animal, indivíduo ou grupo de pessoas.

As regras pedem também que o nome seja pronunciável e que estabeleçam alguma relação com a doença, sem ser estigmatizante. Por falta de nomenclatura adequada, a doença estava sendo identificada por diversos nomes, inclusive “coronavírus de Wuhan”.

O objetivo, além de evitar rótulos e preconceitos, é impedir grandes equívocos históricos como o da “gripe espanhola”, que matou milhões de pessoas após a Primeira Guerra Mundial e nada tinha a ver com a Espanha. O novo nome da doença foi retirado das palavras corona, vírus e doença, com 2019 representando o ano em que surgiu.

A epidemia do Covid-19 e o espaço que ocupa no noticiário estimulam a propagação de notícias falsas, principalmente nas redes sociais e aumentam a sensação de medo. A população precisa prestar muita atenção para não espalhar boatos. Essas notícias sem fundamento criam o que já vem sendo chamada de epidemia de informações, com potencial de se propagar com mais rapidez que o vírus.

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Nos últimos dias surgiram notícias tão fantasiosas que é difícil entender como muitas pessoas acreditam nelas. Uma delas é que o Ministério da Saúde tenha orientado a população a beber água quente para evitar a contaminação; outra diz que o chá de erva-doce tem as mesmas propriedades do Tamiflu, medicamento indicado para a prevenção da gripe.

Essas notícias falsas, algumas beirando ao disparate, não ajudam em nada no combate a uma epidemia perigosa, que poderá chegar ao país e precisa ser combatida de maneira correta, seguindo as orientações das autoridades da área da Saúde.

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