Editorial

Solução doméstica

Quando o novo coronavírus começou a fazer vítimas na cidade de Wuhan, na província de Hubei, República Popular da China, nos primeiros dias deste ano, criou-se uma forte expectativa mundial sobre o avanço ou não da doença para outros países. Mesmo com a política de severo isolamento adotado pelas autoridades chinesas, o novo coronavírus espalhou-se rapidamente por outros países. Tanto que, quando em 11 de março a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que se tratava de uma pandemia, houve uma verdadeira corrida para comprar equipamentos de proteção e respiradores, material imprescindível para uma parcela dos afetados pelo vírus e que precisam de internação.

Foi nesse momento, quando a doença começou a penetrar na Europa inicialmente e em outros continentes na sequência, que muitos países se deram conta de que não dispunham de material adequado nem equipamentos de proteção para enfrentar o que vinha pela frente. Mesmo com a epidemia crescendo rapidamente em países europeus, Itália e Espanha, principalmente, alguns governos relutaram em adotar medidas restritivas à circulação de pessoas, entre eles os Estados Unidos. Mas quando a pandemia atravessou o Atlântico e atacou com força algumas regiões da América do Norte, como o Estado de Nova York, a corrida atrás de equipamentos e protetores deslanchou. Como a maioria de fabricantes, tanto de equipamentos de proteção individual, sobretudo máscaras, como de respiradores está localizada na China, houve um crescimento gigantesco na procura. Com o poder econômico que tem, os Estados Unidos começaram a fazer compras em massa e enviaram de uma só vez 23 aviões cargueiros para retirar o material adquirido. Muitos compradores, inclusive o Brasil, teriam ficado em segundo plano, com perigoso atraso na entrega do que já havia sido adquirido.

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Para garantir equipamentos para enfrentar a pandemia, o Ministério da Saúde comprou todos os equipamentos disponíveis no mercado, principalmente respiradores, restando aos governos estaduais e a hospitais particulares a alternativa da importação direta. Com a dispensa de licitação por conta do estado de calamidade pública, começaram as trapalhadas, que não foram poucas. O governo do Amazonas gastou quase R$ 3 milhões na compra de respiradores que, mais tarde, foram considerados inadequados para o tratamento de Covid-19 pelo Conselho Regional de Medicina do Amazonas. Outros Estados adquiriram equipamentos chineses que não funcionam. Sem ter onde comprar equipamentos no Brasil e concentrando o maior número de casos, o Estado de São Paulo encomendou 3 mil aparelhos na China em caráter de urgência a um custo de 100 milhões de dólares, um preço considerado excessivamente alto. Até a importação de máscaras de proteção teve problemas. A Anvisa recentemente interditou grandes lotes de máscaras padrão, os chamados respiradores para particulados (N95, PFF2 ou equivalente) produzido por mais de uma dezena de fabricantes chineses, por não atenderem às especificações técnicas, ou seja, não protegem corretamente os profissionais que as usam e colocam suas vidas em risco.

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Para suprir a necessidade de respiradores e diante do não recebimento de material importado, o governo federal anunciou no início de abril uma parceria para a produção de respiradores no Brasil, que entregaria 6,5 mil aparelhos em três meses. A empresa escolhida para produzir esses equipamentos foi a Flex, indústria instalada em Sorocaba que produz equipamentos de alta tecnologia por demanda. A Flex treinou funcionários, desenvolveu tecnologia e montou duas linhas de montagem com capacidade para fabricar até 400 unidades por dia. A produção começou há algumas semanas e na última sexta-feira (15) a unidade foi visitada pelo ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Foi formada ainda uma parceria entre a Marinha do Brasil e a Universidade de São Paulo para criar ventiladores pulmonares para os pacientes de Covid-19. Trata-se de um aparelho de baixo custo que pode ser montado em até duas horas. USP e Marinha se preparam agora para iniciar a produção entre 25 e 50 aparelhos por dia, número que pode aumentar dependendo da demanda.

É disso que precisamos. De iniciativas importantes, desenvolvidas por técnicos brasileiros, que poderão resolver no médio prazo a carência de equipamentos tão importantes para o momento grave que atravessamos, com a vantagem de criar tecnologia e gerar empregos no País, sem necessidade de importações incertas e muitas vezes problemáticas. Que mais iniciativas como essas sejam tomadas para que possamos enfrentar a pandemia sem depender quase que totalmente de material e equipamentos importados.

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