Editorial

Solução demorada

Se nem os estudos foram concluídos, é provável que Crespo cumpra sua promessa de instalação de uma usina de tratamento de lixo não reciclado

Há muitos anos, mostrar preocupação com o meio ambiente e apresentar propostas que venham contribuir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos faz parte das plataformas políticas de candidatos, sobretudo aqueles que disputam cargos majoritários. Com o atual prefeito de Sorocaba, José Crespo (DEM), não foi diferente. E entre as prioridades nessa área estava a criação de uma Unidade de Recuperação de Energia (URE), um sistema que realiza a queima e tratamento de lixo não reciclado, ao mesmo tempo em que produz energia térmica ou elétrica. Trata-se de um sistema altamente sofisticado e benéfico ao meio ambiente e vem sendo utilizado por vários países europeus. Não é por outro motivo que a Alemanha — país onde a preocupação com o meio ambiente é grande — foi utilizada para substituir os aterros sanitários, que já foram considerados eficientes tempos atrás, mas que hoje já estão classificados como a pior opção para a disposição final do lixo, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A criação de uma URE em Sorocaba é uma ideia ousada e que requer altos investimentos. Sua implantação é demorada, depende de muitas licenças ambientais e especialistas afirmam que é preciso comprovar sua viabilidade técnica e que seja implantado um rigoroso programa de monitoramento de emissão de gases que precisa ser aprovado pelos órgãos ambientais. Apesar das promessas, Sorocaba avançou pouco para implantar sua unidade. Conforme revelou a reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul no último domingo, a Prefeitura informou no início de abril que os estudos se encontravam em fase final e estavam sendo elaborados por uma empresa especializada, contratada por meio de chamamento público realizado pela Comissão de Parceria Público-Privada da Prefeitura. Na época, a expectativa era de que os estudos seriam entregues dentro de 30 dias. A partir daí, a administração municipal passaria a avaliar o projeto para viabilizar o processo licitatório. Passados mais de 30 dias, o trabalho não foi concluído e a informação é que a empresa, sem marcar uma data, pretende apresentar os estudos à Secretaria de Saneamento (Sesan).

Sorocaba já foi referência na questão da deposição de resíduos sólidos. No início dos anos 1980, depois de enfrentar vários problemas com lixões da cidade que traziam enormes problemas ambientais e sociais, com o surgimento de um grande número de pessoas que viviam perigosamente coletando objetos nesses locais, a Prefeitura resolveu criar um aterro sanitário decente, atendendo as normas legais. Foi criado o aterro sanitário na Vila São João que chegou a ser considerado uma referência, até esgotar sua capacidade de armazenamento. Os conceitos e a tecnologia sobre a destinação final dos resíduos sólidos evoluíram desde então, mas Sorocaba continua a utilizar do mesmo tipo de dispositivo só que fora do território do município. Para o aterro de Iperó são enviados aproximadamente 95% do lixo gerado pelos sorocabanos, e a coleta seletiva é muito pouca. Sorocaba conta com três cooperativas conveniadas, mas que reciclam — por falta de estrutura ou incentivo — uma quantidade mínima de lixo atendendo apenas alguns bairros da cidade. A cidade gera mais de 500 toneladas diárias de lixo e para a utilização de uma Usina de Recuperação de Energia seria necessário que todo o lixo reciclável fosse separado, uma condição que estamos longe de atingir. Essas usinas representam uma alternativa sustentável para o problema do lixo, sendo inclusive recomendada pela ONU, pois além de reduzir o volume de resíduos, transformando-os em energia, ainda diminui a disposição de resíduos em aterros, incentivando o reúso e a reciclagem.

Todo esse processo é complexo, envolve estudos detalhados, grandes investimentos e, sobretudo, vontade política. Se nem os estudos foram concluídos, é muito provável que o prefeito Crespo não consiga cumprir sua promessa de instalação de uma usina. Caso ele avance em alguns aspectos do projeto, é preciso que a população cobre dos governos que vierem a sucedê-lo, o compromisso de seguir adiante em busca em uma solução bastante razoável para a questão do lixo. É o tipo de problema que não pode ser jogado para debaixo do tapete a cada eleição.

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