Editorial

Sigam o dinheiro

Imagens de apreensões de grandes quantias de dinheiro são divulgadas com frequência



Crédito da foto: Assessoria / PJC-MT (30/6/2019)

Com muita frequência o cidadão brasileiro tem acesso — pela TV, jornais, revistas ou pela internet — a imagens de malas, caixas e mochilas recheadas com notas de alto valor, muitas vezes permeadas por pacotes de dólares, caprichosamente agrupadas por cintas de conferência. A imagem geralmente acompanha notícia de casos de corrupção ou tráfico pesado de drogas. A última imagem que chegou aos leitores/espectadores foi a das malas que estavam dentro de um avião Cessna 206 que decolou de Sorocaba há alguns dias e fez um pouso forçado na região de Alta Floresta, Mato Grosso, a 800 quilômetros de Cuiabá. Ao revistar o avião a polícia encontrou seis malas com mais de R$ 4,6 milhões em dinheiro vivo, separado em pacotes de R$ 50 e R$ 100. As versões apresentadas pelo piloto sobre a origem do dinheiro foram consideradas inconsistentes.

Outra mala de dinheiro que ficou famosa foi aquela carregada pelo ex-deputado e ex-assessor do ex-presidente Temer, Rodrigo Rocha Loures, que continha R$ 500 mil. Ficou famosa a imagem de Loures correndo com o acessório na saída de uma pizzaria de São Paulo após receber o dinheiro de um executivo delator da J&F, controladora da JBS.

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Mas as malas mais vistosas e que se tornaram praticamente um símbolo da corrupção no País são aquelas que pertenceriam ao ex-deputado federal Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Lula e Temer e ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal do governo Dilma. Por meio de denúncia anônima, as malas e caixas foram localizadas em um apartamento em zona nobre de Salvador transformado em caixa-forte. Após um empréstimo de sete máquinas de contar dinheiro e um trabalho que durou horas, a Polícia Federal contou mais de R$ 51 milhões além de US$ 2,6 milhões. Para serem transportadas, as nove malas e sete caixas de papelão lotaram a caçamba de duas picapes da Polícia Federal. Geddel está preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, mas a origem exata da montanha de dinheiro ainda é incerta.

Outra quantia estratosférica que atiçou a imaginação da população, mas que nunca foi vista, é a do suposto bunker do ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto. O esconderijo nunca foi encontrado, mas vários delatores afirmam que estava abarrotado com cerca de R$ 100 milhões de dinheiro em espécie, supostamente fruto de propinas de empreiteiras. Ele é suspeito ainda de manter várias contas recheadas no exterior. Está preso no Complexo Médico Penal de Pinhais, no Paraná.

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Também ficou na memória coletiva a imagem do assessor do deputado federal José Guimarães (PT-CE), em 2005, que foi apanhado no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com US$ 100 mil dólares escondidos na cueca e mais R$ 209 mil em uma maleta de mão. O mesmo deputado, que em audiência nesta semana propôs ao ministro da Justiça, Sergio Moro, que “firme um compromisso com a ética e a verdade”, não figura mais como réu na ação de improbidade administrativa referente a esses dólares, por decisão unânime da Primeira Turma do STJ, em junho de 2012.

Os exemplos não param por aí. São inúmeros casos em que quantidades enormes de dinheiro são apreendidas, principalmente após o início da Operação Lava Jato, mas em muitos, falta uma explicação convincente da origem do dinheiro e a identificação de seu real proprietário. Mais do que isso. O que certamente intriga o cidadão comum, contribuinte que paga seus impostos e obedece às leis é como essas quantidades de dinheiro em espécie circulam por aí, são retiradas de agências bancárias, transferidas de um Estado para outro, sem que o Banco Central ou a Receita Federal, tão zelosa com as declarações de imposto de renda, tomem conhecimento da movimentação. O cidadão comum encontra enorme dificuldade em fazer uma transferência um pouco acima do normal de sua conta corrente e retirar quantias acima de R$ 10 mil em espécie muitas vezes precisa ser precedida de aviso à agência bancária, entre outras providências. A impressão que fica é que a fiscalização rigorosa é seletiva, só atinge determinada faixa de cidadãos. E a cada nova imagem de grandes quantidades de dinheiro divulgadas, a cada novo escândalo ou prisão, percebe-se que a Operação Lava Jato e investigações similares só estão começando. Há muito o que investigar e identificar as fontes dessa dinheirama toda de origem suspeita.

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