Editorial

Ser honesto. Parecer honesto

Considerando-se que as intenções do Executivo sejam as mais corretas possíveis, buscando o interesse da população, que assim sejam seus atos

Está lá escrito. É uma história bastante conhecida que vale relembrar com algumas datas e citando os personagens. “Decorria, em casa de Júlio César, no dia 1 de maio do ano 62 a.C., a festa da Bona Dea (Boa Deusa), uma orgia báquica, reservada exclusivamente às mulheres. A celebração fora organizada por Pompeia Sula, segunda mulher de Júlio César, ao que consta, uma mulher jovem e muito bela. Acontece que Publius Clodius, jovem rico e atrevido, estava apaixonado por Pompeia, não resistiu: disfarçou-se de tocadora de lira e, clandestinamente, entrou na festa, na esperança de chegar junto de Pompeia. Porém, foi descoberto por Aurélia, mãe de César, sem que tivesse conseguido os seus intentos. Nesse mesmo dia, todos os romanos conheciam a peripécia e César decretou o divórcio de Pompeia. Mas César não ficou contra Publius Clodius, chamado a depor como testemunha em tribunal, disse que nada tinha, nem nada sabia contra o suposto sacrílego. Foi o espanto geral entre os senadores: ‘Então porque se divorciou da sua mulher?’. A resposta tornou-se famosa: ‘A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita’. Esta frase deu origem a um provérbio, cujo texto é geralmente o seguinte: ‘À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta’.”

O senhor Prefeito tem acesso a um espaço quinzenal neste jornal, como hoje, onde é livre para expor seus pontos de vista, sem qualquer interferência da direção deste Jornal, como tem também o senhor Governador e outros secretários de Estado, professores universitários, especialistas e colaboradores em geral. O leitor, eleitor e cidadão, é o melhor avalista do que aqui está sendo exposto.

A administração municipal em Sorocaba passa novamente por momentos constrangedores. E como consequência, a população que assiste, meio que de longe, a esses momentos pouco enaltecedores.

Pivô de acontecimentos políticos que levaram à cassação do Prefeito há ano e meio, embate que por meses praticamente paralisou a administração da cidade e trouxe uma grande redução de atividades imobiliárias, entre outras, que ficaram no compasso de espera, uma pessoa que se apresentava até então como “voluntária” para exercer as exigentes atividades profissionais públicas, volta a rondar a cena política. Não uma cena aberta, explícita, mas uma cena enrustida, de bastidores, com a aprovação e apoio do senhor Prefeito.

Sem se ater no provincianismo que fica o jogo de poder da manutenção da influência de tal “voluntária”, um cabo de guerra que lembra atividades de grupo de escoteiros, o que importa de fato é que atividades da Câmara de Vereadores, diga-se horas caras às custas do contribuinte, são dirigidas à criação de uma CPI, discussões sobre a morte da potranca, e outras atividades de ainda menor interesse desta cidade de quase 700 mil habitantes.

Os interesses que existem na dedicação do Executivo em manter sua vontade sobre quem deva estar próximo ou ligado às atividades tão sensíveis como a formação e manutenção de imagem da própria administração é um direito que qualquer governante tem, desde que atenda a critérios legais. A resolução de decreto criado pelo próprio Prefeito de anular, revogar outro decreto, com erros de grafia, que tratava sobre a normatização dos serviços de voluntários — sem remuneração de qualquer espécie — traz duas considerações. Estaria tentando esvaziar a CPI da Câmara que, pela pressão popular, poderia atrair outros vereadores, sem grandes convicções, para fazer parte de uma maioria que, mais uma vez, poderia levar a um novo impedimento.

Ou, uma segunda consideração, desclassificar qualquer definição operacional sobre o que seria ser um ser “voluntário”, quais seriam, ou não, suas qualificações técnicas e acadêmicas, e assim abrir caminho para qualquer perfil de “profissional” que se encaixe nos desejos institucionais. O grande problema dessa ação é que também abre caminho para o exercício de atividades não republicanas, para dizer o mínimo, não transparentes, em especial na gestão de orçamentos da coisa pública.

Considerando-se que as intenções do Executivo sejam as mais corretas possíveis, buscando o melhor interesse da população, que assim sejam seus atos. E de seus assessores. E de todo o corpo gerencial e legislativo desta Sorocaba que não merece menos. Porque decisões e atos devem ser espelhados no exemplo de Júlio César e não no de Publius Clodius.

Comentários

CLASSICRUZEIRO