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Editorial

Rodízio indigesto

Em entrevista coletiva realizada no sexto andar do Palácio dos Tropeiros, a prefeita Jaqueline Coutinho (PDT) e o diretor-geral do Saae, Mauri Pongitor, anunciaram uma das medidas mais drásticas de controle de distribuição de água na cidade nos últimos tempos: um rodízio que afetará todas as regiões da cidade até que a situação dos mananciais melhore.

Trata-se de um rodízio rigoroso, em que está prevista a interrupção do fornecimento por 13 horas seguidas nas diversas regiões em que a cidade foi dividida. Pior situação o sorocabano só enfrentou quando, em mais de uma oportunidade, houve rompimento das adutoras que trazem água das represas Itupararanga/Clemente localizadas na Serra de São Francisco até a Estação de Tratamento de Água do Cerrado, depois de percorrer 15 quilômetros.

A região de Sorocaba, segundo levantamento do próprio Saae, enfrenta um período prolongado de estiagem. Sem considerar o temporal desta terça-feira (5), a última grande chuva foi registrada, conforme a autarquia, há 123 dias.

De maio a outubro deste ano, tivemos somente 66% das chuvas previstas, ao contrário do ano passado quando, no mesmo período, choveu o equivalente a 95% da média histórica.

Essa estiagem fora de época afetou principalmente três reservatórios de Sorocaba, Ipanema das Pedras (uma pequena represa auxiliar da ETA do Cerrado, utilizada principalmente em horários de pico); a do Ferraz, localizada no bairro do Éden; e a da Castelinho, um pequeno reservatório auxiliar desta última represa.

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A represa de Itupararanga, de onde o Saae retira 85% da água bruta consumida pela cidade opera com 50% de sua capacidade, uma situação normal para esta época do ano.

A cidade conta ainda com uma rede de poços artesianos utilizados para abastecer principalmente a região de Brigadeiro Tobias, no extremo leste da cidade.

Existem alguns fatores que contribuem para aumentar esse problema de falta de água e um bom planejamento poderia, sem muita dificuldade, prever e até impedir essa situação.

O Saae vem trabalhando para evitar a perda de água tratada na distribuição, mas mesmo assim a autarquia admite que perde, entre vazamentos e ligações clandestinas, aproximadamente 40% da água tratada da cidade.

Essas perdas precisam urgentemente ser evitadas. Em entrevista à Cruzeiro FM 92,3, o diretor-geral do Saae informou que hoje apenas três das quatro adutoras que ligam a ETA Cerrado à represa de Itupararanga estão funcionando.

Uma quarta adutora, feita de tubos de aço, está sendo reparada. Só essa adutora poderia trazer entre 450 e 500 litros de água por segundo para ser distribuída.

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O Saae fez um bom investimento e há pouco tempo conseguiu interligar com anéis de distribuição todas as regiões da cidade, inclusive as regiões do Éden e de Brigadeiro Tobias.

Se houvesse mais água chegando à ETA Cerrado, todas as regiões poderiam ser atendidas minimizando o problema temporário da situação da represa do Ferraz.

A Estação de Tratamento de Água do Vitória Régia, que vai captar o líquido diretamente do rio Sorocaba, está em construção e só será concluída no ano que vem.

Ela contribuirá com 750 litros por segundo, perto de 30% do que os sorocabanos consomem hoje.

Sorocaba cresce rápido e esse ritmo precisa ser acompanhado por planejamento eficiente. Alguns empreendimentos, entretanto, pelas suas dimensões, podem atrapalhar até os melhores planejadores.

Um exemplo típico são os gigantescos conjuntos habitacionais criados na zona norte da cidade, quase na divisa do município, aprovados pela Prefeitura, onde há pouco mais de um ano foram entregues os milhares de apartamentos nos conjuntos Carandá e Altos do Ipanema.

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O Saae, evidentemente, teve de estender suas redes de água e esgoto até essa região onde antes existiam propriedades rurais.

Os dois conjuntos somam perto de 5 mil apartamentos e hoje devem ter 20 mil habitantes, população maior do que dezenas de municípios paulistas.

Culpar o alto consumo da população pela situação crítica não parece uma medida razoável da direção da autarquia. Aumento de consumo com a chegada dos dias quentes da primavera é absolutamente previsível.

Um indicativo de que o Saae não estava preparado para o aumento do consumo ocorreu em meados do mês passado, no primeiro final de semana com temperaturas elevadas, quando faltou água em vários bairros.

Os cortes no fornecimento, mesmo que em rodízios, trazem outros inconvenientes, como a passagem de ar pelos hidrômetros, aumentando artificialmente a conta dos consumidores, e consumo excessivo após o restabelecimento, quando a água chega as casas com cor escura, precisando ser descartada.

A situação crítica dos três reservatórios do Saae é passageira. A normalização do ciclo de chuvas vai recuperar os mananciais em pouco tempo. É preciso, entretanto, que o Saae apreenda a lição e esteja mais preparado para a questão do abastecimento, um problema que só vai crescer.

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