Editorial

Reparos nos pontilhões

Brasil vem colecionando tragédias nas últimas semanas, todas em consequência de má gestão e falta de fiscalização
Pontilhão faz a ligação entre o Trujillo e bairros das zonas norte e oeste com o Centro. Foto: Emídio Marques

Reportagens publicadas pelo Cruzeiro do Sul sobre a situação de pontilhões e viadutos da cidade — vários deles com visíveis sinais de deterioração — têm surtido algum efeito. Na última sexta-feira, representantes da Rumo, a concessionária responsável pela malha ferroviária na região, reuniram-se com técnicos e secretários da Prefeitura de Sorocaba para debater a questão. Os representantes da concessionária informaram que pontilhões existentes na área urbana da cidade e que apresentam rachaduras e desgastes aparentes, conforme denunciou o jornal, serão reformados.

O pontilhão da praça Lions, que havia sido interditado com tubos de concreto pela Prefeitura no dia anterior, não apresenta risco, segundo a Rumo. Aquele ramal está desativado e sobre ele não passam composições ferroviárias. Era usado para manobras naquele trecho e no passado servia de interligação com a ferrovia do Grupo Votorantim, hoje também desativada. De acordo com a Rumo, o trecho já estava interditado para a passagem de trens de carga, mas sem bloqueios físicos. A reforma deverá começar em 90 dias com prazo de 120 dias para sua conclusão.

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A situação mais preocupante é a dos pontilhões que ficam sobre a rua Professor Toledo, ao lado de um shopping center e importante via de acesso para o bairro do Trujillo e parte das zonas norte e oeste da cidade. Os pontilhões dão suporte à via permanente da ferrovia que cruza a região. Embora o movimento do transporte ferroviário tenha diminuído muito nos últimos anos, é por ali que passam as composições de carga que ainda circulam. Curioso notar que apenas uma linha está sendo utilizada.

Na outra, o mato cresce viçoso, revelando o quão decadente está esse tipo de transporte no país. Embora os problemas apresentados naqueles pontilhões tenham sido minimizados pelos representantes da concessionária, é importante lembrar que a empresa havia notado recalque de um pilar quatro meses atrás e por isso passou a monitorar o pontilhão. Segundo eles, o recalque do pilar ficou estabilizado nos últimos três meses, sem risco de queda. Conforme a nota divulgada pela Prefeitura, serão instaladas estacas para garantir a estabilidade do local.

Em outras palavras, o problema não é tão simples assim e merece atenção especial da concessionária. Aquele pontilhão foi construído no final da década de 1950 e proporcionou a ligação direta entre a região central da cidade e o atual bairro do Trujillo. Antes disso, a ligação mais próxima daquela região com o Centro era pelos pontilhões da praça da Bandeira. As obras nesse pontilhão serão mais complexas, deverão começar dentro de 60 dias e será preciso interditar uma das três faixas de rolamento, o que certamente trará dificuldades para os motoristas que por ali circulam.

Infelizmente o Brasil vem colecionando tragédias nas últimas semanas, todas em consequência de má gestão e falta de fiscalização. O rompimento da barragem de Brumadinho, as consequências do temporal no Rio de Janeiro, o incêndio no alojamento do Flamengo, todos com grande número de vítimas e prejuízos incalculáveis. No final do ano passado, a queda parcial de um viaduto na Marginal do rio Pinheiros, em São Paulo, poderia ter se transformado em outra tragédia se não tivesse ocorrido durante a madrugada.

Para reparar esse viaduto a prefeitura paulistana vai demorar mais quatro meses, tornando o trânsito da Capital mais caótico que de costume e um custo altíssimo. O problema nesse viaduto acendeu o sinal de alerta na Prefeitura de São Paulo que reforçou o trabalho de vistoria nos viadutos e pontes da cidade. Como resultado, mais um viaduto importante foi interditado, o que liga a Marginal do rio Tietê com a rodovia Presidente Dutra, prejudicando ainda mais o trânsito.

Essas tragédias em sequência deixam a população compreensivelmente preocupada, em alerta para os mínimos sinais de perigo. A Rumo, mesmo com algum atraso, participou de uma reunião na Prefeitura e tomou algumas medidas com relação aos pontilhões sob sua responsabilidade. O mesmo não acontece com a Prefeitura de Sorocaba que há semanas está devendo informações sobre a situação de pontes e viadutos sob sua responsabilidade.

Foi questionada, por exemplo, sobre as condições do viaduto Jânio Quadros, construído nos anos 1950 e do viaduto dos Ferroviários e até agora não se manifestou. Não se sabe também se são feitas fiscalizações em pontes e outras obras de arte importantíssimas pela cidade. A Prefeitura deve explicações aos sorocabanos.

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