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Editorial

Renovação difícil

Com um ambiente político cada vez mais polarizado e conturbado por um escândalo seguido de outro, as esperanças de renovação na política ficam cada vez mais distantes. O desgaste de imagem não afeta a disposição dos atuais parlamentares em buscar a reeleição. Os partidos representados no Congresso projetam um índice recorde de candidatos à reeleição. Um levantamento realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo há dois meses revela que ao menos 447 deputados — nove entre dez — querem manter-se no Congresso por mais quatro anos. Outros 18 ainda não se decidiram e apenas 48 informaram que deixarão a Casa. Não é só isso. Dos 55 deputados federais alvos de inquéritos e ações penais da Operação Lava Jato, 50 deles, 91% do total, vão disputar eleição este ano. Três parlamentares não responderam à pesquisa e somente dois informaram que não são candidatos. Sem contar que muitos políticos comprometidos com escândalos colocam seus filhos como sucessores políticos. É o que acontece com o deputado federal Marco Antônio Cabral (MDB-RJ), filho do ex-governador Sérgio Cabral, que tentará reeleição e Danielle Dytz Cunha, filha de outro preso ilustre, Eduardo Cunha, que disputará uma vaga na Câmara Federal.

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Fala-se muito em renovação, mas na realidade, pessoas de fora dos grupos políticos têm enorme dificuldade para conseguir entrar nesse universo, pois a relação de forças é muito diferente. Quem tem mandato conta com toda uma infraestrutura fornecida pelo Congresso ou Assembleia Legislativa, o que inclui funcionários, assessores, transporte, hospedagem, recursos partidários, força política e proximidade com o poder. Sua trajetória em busca da reeleição, por exemplo, é muito mais fácil do que para aquele que está de fora e conta apenas com recursos próprios.

Fato é que apesar das pesquisas indicarem que o descrédito dos políticos pede figuras novas, dos candidatos independentes que foram surgindo durante este ano, aos poucos foram desistindo. Foi assim com o ex-ministro Joaquim Barbosa que durante alguns meses flertou com a política e chegou a ser cobiçado por várias agremiações por sua postura correta frente ao STF e como relator do escândalo do Mensalão, que levou vários figurões para a cadeia. Barbosa, que vive uma vida confortável de ex-ministro e dando eventuais pareceres jurídicos a preço de ouro, não teria aguentado as pressões familiares.

No campo dos empresários e celebridades televisivas, o primeiro a ser sondado para concorrer a um cargo elevado foi o empresário Roberto Justus, que desistiu de disputar o governo de São Paulo. O apresentador da TV Globo Luciano Huck ficou meses na indefinição e desistiu duas vezes de se lançar à Presidência da República. Das celebridades televisivas, o último a se empolgar com uma candidatura ao Senado foi o apresentador José Luiz Datena. Durante duas semanas ele criou muita expectativa, mas ao final resolveu sair da cena. Datena alega insustentável pressão familiar para que não entrasse para a política. Os dois pré-candidatos televisivos, Huck e Datena, praticamente teriam que encerrar a carreira profissional após a campanha eleitoral, independentemente de serem ou não vitoriosos.

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O último outsider, o empresário Flavio Rocha, proprietário de uma das maiores confecções do país, a Guararapes e da rede de lojas Riachuelo, também jogou a toalha. Filiado ao PRB e com perfil conservador, Rocha desistiu de sua candidatura à Presidência há alguns dias.

Essas experiências negativas no mundo da política fazem lembrar a experiência do empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, que morreu em 2014. O empresário, animado com a redemocratização do País, resolveu se candidatar a governador de São Paulo, em 1986. Perdeu as eleições e o interesse pela política partidária. Detestou a experiência. O pior, segundo ele, foi conviver com propostas que eram o oposto de tudo aquilo que ele havia defendido na vida, como cidadão e empresário. Apesar de tudo, é preciso oxigenar esse ambiente cheio de tantos vícios, incentivar o surgimento de novas lideranças. A necessidade da renovação na política é real e urgente. Não votar em envolvidos em escândalos ou parentes destes já seria um bom começo.

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