Editorial

Pompa e Circunstância para todos

A qualidade da Orquestra Sinfônica Municipal e a Fundec mostram como o trabalho do cidadão pode trazer benefícios para todos

Ao ouvir Pompa e Circunstância, Opus 39, uma das cinco marchas compostas para orquestra por Edward Elgar, tocada com tanto entusiasmo e sensibilidade pela orquestra Sinfônica de Sorocaba na Fundec, não se deve deixar de lembrar a origem de “Pomp and Circumstance”. Essa expressão que surgiu em “Otelo, o Mouro de Veneza”, famosa obra de Shakespeare, foi dita pelo protagonista quando decidiu abandonar as lutas: “Farewell to the pomp and circumstance of glorious wars”. A tradução mais apropriada seria “Adeus à pompa e cerimônia das guerras gloriosas”.

No entanto, prezada leitora e leitor, em nada aqui deve-se dizer adeus. Ao contrário, que seja como um convite, um persistente convite à qualidade e cultura em Sorocaba, que há pouco mais de uma década era considerada uma cidade árida em acontecimentos culturais de qualidade. Deve-se entender que “Pompa e Circunstância” é uma locução adverbial que significa “de modo requintado e de acordo com a etiqueta”, segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. E, dirigida com cuidado e rigor pelo internacional maestro Eduardo Ostegren, numa sala que nem todos conhecem — muita qualidade técnica para música percebe-se que a homenagem de toda essa pompa é para o público que tem o privilégio de estar presente. E pode ser qualquer pessoa. Basta querer. O acesso à Fundec é para todos.

Ao realizar um dos eventos que pelos próximos meses celebrarão o aniversário de 150 anos da Loja Maçônica Perseverança III — mantenedora da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), deste jornal, do Colégio Politécnico e outras organizações do terceiro setor — a noite de música mostrou mais que uma celebração. Foram sons e impressões e muita sensibilidade — da qualidade do que está sendo produzido em Sorocaba. Uma noite especial que incluiu um repertório que começou com Bach, Beethoven, Mozart e aqui um presente extra Schubert, com ainda outra surpresa. E terminou com Elgar.

Dois momentos que sempre surpreendem o público: a soprano Eliane Pereira, que cantou Vendrai Carino, da Ópera Don Giovani. Uma voz especial que vai conquistar plateias internacionais. Eliane é aluna de canto lírico da professora Suely Freitas do núcleo de música da Fundec, que conclui seu curso este ano. Outra agradável surpresa foi William Camargo Lima, que se apresenta como “serrotista”, solando a Ave Maria de Franz Schubert ao som do serrote com acompanhamento das cordas. Algo que seria popular pela sua origem e que, em conjunto com a orquestra, cria um momento único. Até os ouvidos mais desafinados se emocionaram com essas apresentações.

Boa parte dos músicos que tocam na Orquestra Municipal, que tem a sua sede, ensaios e inúmeras apresentações — como hoje no início da noite — na Fundec, são professores ou mesmo alguns ex-alunos da Fundação. O regente Ostegren, depois de anos ensinando em universidades americanas e Unicamp, além de regência na Europa, tem uma didática e cuidado com suas apresentações que atrai cada vez mais uma fascinada plateia. Um elenco que há muito tempo Sorocaba merecia e que poucas cidades no Brasil podem chamar de seu.

Completa esse grupo de qualidade excepcional o ambiente, a sala Fundec que, graça ao apoio do poder Executivo, foi especialmente construída para ser um ambiente de música durante a administração de Alexandre Latuf, diretor da radio Cruzeiro FM 92,3 e membro da Perseverança III, com cuidados de acústica, iluminação e engenharia.

Num momento em que se fala de Índice de Desenvolvimento Humano IDH em que o Brasil ficou novamente estacionado em 79º lugar, atrás de quatro países da América do Sul, até mesmo, pasmem, da Venezuela, deve-se observar que Sorocaba se destaca fora da mediocridade.

Destaca-se pela qualidade de vida, incluindo não apenas a excelente música clássica, com pompas e circunstâncias adequadas ao corpo de músicos da Fundec, como também pelos inúmeros eventos culturais mais populares que estão sendo produzidos na cidade, em diferentes ambientes, em locais públicos e outros particulares. Com conteúdo diverso.

E o que faz toda essa diferença? É a população, é o cidadão tomando conta dos destinos da cidade, contribuindo com seu trabalho e equipe, como faz a direção da Fundec que, sem receber salários ou qualquer tipo de proventos, produz com seu melhor para a elevação não apenas de nosso IDH mas sim com a qualidade cultural de nossa região, ao alcance de todos. Ao alcance de todos.

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