Editorial

Perigo sobre rodas

Apesar de serem causadoras de tantos acidentes, as motos representam menos de 30% dos quase 100 milhões de veículos do País

Diariamente, milhares de automóveis, caminhões, ônibus e motos disputam espaço nas vias urbanas e rodovias brasileiras. Nessa disputa, devido ao seu porte a moto sempre sai perdendo. Reportagem publicada por este jornal no último domingo mostra que os motociclistas jovens são a maioria nas estatísticas de morte no trânsito em Sorocaba. De janeiro a outubro a cidade registrou 76 mortes no trânsito, com um aumento de mais de 15% em relação ao ano anterior. A maior parte dessas vítimas — 35 de 76 — estava em uma motocicleta e tinha entre 18 e 24 anos. É um número assustador que se repete no País inteiro e que está dizimando boa parte de nossa juventude. Essas estatísticas, entretanto, não mostram aqueles que morrem dias depois do acidente, em hospitais e a grande quantidade de jovens que terão que conviver pelo resto da vida com sequelas graves.

Levantamento realizado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária com base em dados de 2016, os mais recentes na época do trabalho, mostra que a moto é o veículo que mais mata no Brasil. Das 37,3 mil registradas em acidentes de trânsito naquele ano, 12,1 mil envolviam motociclistas, ou seja, 32% das vítimas. Apesar de serem causadoras de tantos acidentes, as motos representam menos de 30% dos quase 100 milhões de veículos do País, de acordo com o Denatran, com dados de 2017. E mesmo nessa condição de representar menos de um terço da frota, os motociclistas foram responsáveis em 2017 por 74% de todas as indenizações do DPVAT, o Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre.

E a frota de motocicletas tende a crescer nos próximos anos. Hoje o Brasil já é o oitavo maior produtor de motos do mundo, com praticamente todas as fábricas instaladas na Zona Franca de Manaus. A crise econômica dos últimos anos fez com que muita gente aderisse ao uso de motocicletas. Elas são mais econômicas do que os automóveis embora poluam muito mais e chegam a ter um custo mensal inferior ao transporte coletivo devido ao seu baixo consumo. Condições favoráveis de financiamento também contribuem para o aumento da frota de duas rodas. Essa procura por motos é também um reflexo do transporte público pouco eficiente que temos. E sem contar que a moto oferece a flexibilidade e a autonomia e que não requer grande espaço para estacionamento. Essas vantagens em relação aos meios de transportes coletivos é que fazem a indústria de motocicletas crescer.

Para evitar tantos acidentes e tantas mortes prematuras será preciso repensar o uso da motocicleta. Segundo especialistas, é preciso começar pela carteira de habilitação. Para aprender a se defender no meio do trânsito, o aspirante a motociclista precisa de muitas aulas teóricas e sobretudo muita prática no trânsito, experimentando pilotagem na chuva, em vias de grande movimento, no período noturno e em rodovias, o que não ocorre hoje. Para uma pilotagem segura o motociclista precisa saber com precisão como usar os freios, fazer manutenção preventiva da moto, zelar pela qualidade dos pneus, respeitar as leis de trânsito, utilizar vestuário de proteção, capacete e conhecer a armadilha dos pontos cegos. Uma moto é um veículo compacto e sem proteção. Ao ultrapassar um carro ou veículo de maior porte, praticamente “some” do espelho retrovisor dos motoristas em determinadas situações. Recentemente foi apresentado na Câmara de Sorocaba projeto permitindo que motos usem a faixa exclusiva dos ônibus, com o objetivo de diminuir os acidentes. A eficácia da medida é questionável. Em primeiro lugar a faixa só é exclusiva durante os horários de pico. Os corredores, por comportar tráfego de veículos pesados, geralmente têm mais óleo esparramado na pista e as motos têm que trafegar entre ônibus, onde praticamente “desaparecem”.

Além de melhor formação de motociclistas e motoristas para o convívio diário no trânsito é preciso melhorar — e muito — a fiscalização. São inadmissíveis os abusos que muitas vezes presenciamos nas ruas. Há uma categoria de motociclistas, principalmente aqueles que fazem entregas, que simplesmente aboliram a necessidade de parar nos semáforos. Ultrapassam no vermelho colocando a sua e outras vidas em risco. Abuso seguido de abuso e um dia poderão engordar as estatísticas de acidentes. Motociclistas e motoristas precisam urgentemente mudar seu comportamento no trânsito se quisermos diminuir esse índices de mortes de cidadãos jovens em acidentes.

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