Editorial

Perda irrecuperável

Pesquisadores e funcionários denunciam que o incêndio no mais antigo centro de ciência do País era uma tragédia anunciada

O Brasil ficou mais pobre na noite do último domingo. Como praticamente todo o País acompanhou pela TV ou pela internet, um incêndio destruiu em poucas horas um dos mais importantes museus da América do Sul, o Museu Nacional do Rio de Janeiro, com seus 20 milhões de peças insubstituíveis e de valor inestimável, fruto de 200 anos de história da instituição. Definitivamente, as autoridades brasileiras, com raríssimas exceções, não têm qualquer apreço para o patrimônio cultural da nação. E essa é uma falha comum a todos os governos que comandaram o país nas últimas décadas. Temos uma estrutura burocrática gigantesca com ministérios, institutos, fundações, secretarias estaduais e municipais, com milhares de cargos na área da cultura, mas não conseguimos cuidar sequer de nossos museus.

No mês de maio de 2010, um incêndio destruiu um dos maiores acervos de cobras tropicais do mundo no Instituto Butantã, na capital paulista. Foram destruídos 80 mil exemplares de cobras e milhares de aranhas e escorpiões. Em dezembro de 2015 um incêndio destruiu o Museu da Língua Portuguesa, no bairro da Luz, afetando também o prédio de grande interesse histórico. Dois meses depois, outro incêndio atingiu a Cinemateca Brasileira, na zona sul da cidade de São Paulo destruindo centenas de filmes. Outro incêndio queimou parcialmente o Memorial da América Latina em novembro de 2013, também em São Paulo. Além dessas perdas, é importante lembrar que o maior museu paulista, o Museu do Ipiranga, ligado à Universidade de São Paulo, está fechado há cinco anos e só deverá ser reaberto em 2022. Desde essa época ela passa por reformas e seu acervo está espalhado por imóveis alugados.

Ontem, a Polícia Federal informou que vai assumir as investigações sobre o incêndio e apurar responsabilidades. Mas o que qualquer leigo percebe é que o dinheiro que era destinado à manutenção do museu, inclusive de equipamentos contra incêndio daquele prédio gigantesco, era insuficiente. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, da qual o museu faz parte, recebia apenas R$ 520 mil anuais para isso e o repasse não era total desde 2014. Soma-se à escassez de recursos o descuido na vigilância do prédio. O fogo teria começado no início da noite de domingo, dia em que o museu recebe grande número de visitantes. Quando o fogo foi detectado, aparentemente no primeiro andar, havia quatro vigilantes no edifício. Possivelmente sem treinamento para combate a incêndios, abandonaram o prédio. Os bombeiros foram acionados, mas a ineficiência da administração pública do Rio de Janeiro contribuiu mais uma vez com a tragédia: não havia água suficiente nos hidrantes próximos.

Pesquisadores e funcionários da instituição denunciam que o incêndio no mais antigo centro de ciência do País era uma tragédia anunciada. Em 2004, o secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, Wagner Victer, fez uma denúncia pública sobre essa situação ao constatar instalações elétricas em estado deplorável. “O museu vai pegar fogo”, sentenciou 14 anos atrás.

O acervo, valiosíssimo, foi formado ao longo dos anos por meio de coletas, permutas, escavações doações e aquisições. Tinha coleções nas áreas de geologia, paleontologia, botânica, antropologia biológica, zoologia, arqueologia e etnologia. O fogo destruiu Luzia, o fóssil humano com 12 mil anos, o mais antigo encontrado nas Américas, múmias egípcias doadas ao governo imperial, milhares de fósseis e peças históricas dos povos indígenas.

O prédio, que corre risco de desabamento, tem também grande valor histórico, e foi residência da família imperial. Foi um presente de um traficante de escravos português a D. João VI quando este chegou com a família real ao Brasil, em 1808.

O descaso com o patrimônio cultural é uma praga nacional. Em Sorocaba ela fica patente na situação de abandono de prédios tombados pelo patrimônio histórico, entre outros problemas. No mês de fevereiro de 2012, por exemplo, a reserva técnica dos museus da cidade (Museu Histórico e Ferroviário) e todo acervo do Museu do Tropeirismo, que passava por reformas, foi levado de um prédio da Prefeitura. Até hoje as peças não foram recuperadas.

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