Editorial

Patrimônio e orgulho cultural

O Gabinete de Leitura Sorocabano é um capítulo importante na história da cultura da cidade e merece ser muito valorizado

Instituição cultural mais antiga em atividade em toda a região e verdadeiro patrimônio da cidade e do País, o Gabinete de Leitura Sorocabano completa 154 anos neste dia 13 de janeiro.

Trata-se de uma instituição secular que vem fornecendo relevantes serviços culturais à comunidade desde o seu nascimento, no longínquo ano de 1867.

Sua trajetória se mistura com a própria história do Brasil. Os gabinetes de leitura floresceram na Província de São Paulo no século 19 e cumpriam uma função didática e educacional em uma época em que a educação não era uma prioridade do Império.

Espalhados em regiões distintas do Estado, surgiram quase que simultaneamente e tinham como característica comum o fato de estarem concentrados em municípios prósperos e localizados ao longo das principais rodovias da região — como no caso de Sorocaba, com a Estrada de Ferro Sorocabana.

Os gabinetes de leitura viveram sua efervescência na segunda metade do século 19. Havia 17 deles em São Paulo, dos quais somente três sobreviveram, os de Sorocaba (1867), Rio Claro (1876) e Jundiaí (1908).

A fundação do Gabinete de Leitura Sorocabano ocorreu em momento importante da história da cidade.

O ciclo do Tropeirismo, que trouxe riqueza para esta região, com suas feiras anuais de muares, começava a dar sinais de esgotamento.

Leia mais  Brasil e o escárnio dos ‘fura-filas’

Veio o início da implantação das estradas de ferro no País. Sorocaba ensaiava seu primeiro surto industrial, com a vinda de técnicos estrangeiros para trabalhar na Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema e iniciava o beneficiamento do algodão e as primeiras indústrias têxteis.

O Gabinete de Leitura Sorocabano tem muito do espírito empreendedor de Luiz Matheus Maylasky, um imigrante húngaro que propôs a união entre o Germania Clube, entidade existente desde 1864 e que reunia imigrantes alemães, com sorocabanos ilustres para formar a nova entidade.

O grupo de 13 voluntários instituidores liderado por Maylasky concebeu a entidade a fim de que cumprisse papel de clube social, promovendo diariamente o entretenimento e incentivando a sociabilidade de seus frequentadores. Além de funcionar como guardião da memória coletiva da cidade a longo prazo.

Maylasky foi o primeiro presidente do gabinete e, não por acaso, muitas das reuniões que precederam a inauguração da Estrada de Ferro Sorocabana, em 1875, da qual ele foi um dos articuladores, aconteceram na sede da entidade. O imperador D. Pedro II foi um de seus visitantes mais ilustres.

Em 1873, Maylasky transmitiu seu cargo de presidente ao advogado, jornalista e professor Ubaldino do Amaral. Depois, os gabinetes foram os precursores das bibliotecas públicas que vieram com a República.

Criado para oferecer atividades culturais e literárias, o Gabinete de Leitura se firmou neste século e meio como um núcleo irradiador da cultura do município. Foi a primeira instituição exclusivamente cultural da cidade.

Leia mais  Vacina é uma luz no fim do túnel

Tem um acervo de mais de 50 mil títulos, entre eles livros raros, relatórios das atividades ferroviárias no século 19, documentos históricos, comerciais e jurídicos, fotos, cartas, e um acervo dos jornais que circularam no município.

Foi graças à colaboração do Gabinete que o Cruzeiro do Sul conseguiu digitalizar todos os exemplares desde sua primeira edição, de 1903. Com todo esse acervo, a entidade tornou-se fonte importantíssima de pesquisa para aqueles que querem conhecer a nossa história.

No último domingo (10), o Gabinete de Leitura Sorocabano elegeu a nova diretoria e conselho fiscal para o biênio 2021-2023. Encabeçada pelo empresário Laor Rodrigues, atual vice-presidente da entidade e também ex-presidente da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), a chapa única, intitulada “Oficial Avante”, foi confirmada por aclamação por meio de uma assembleia geral.

Dessa forma, Laor Rodrigues sucederá João Francisco Brotas, o Capitão Brotas. A cerimônia de posse, de acordo com o estatuto, deve ocorrer no último sábado de janeiro (30).

Com cerca de 400 associados, o Gabinete é autônomo financeiramente e mantém-se exclusivamente com a mensalidade que recebe dos sócios e do aluguel de parte de seu prédio localizado na praça Coronel Fernando Prestes.

Leia mais  É hora de cortar para ajudar mais

Na última gestão, além do aumento do quadro associativo, também foi inaugurado o espaço “Café, livros e companhia”, voltado à interação e socialização de seus frequentadores.

Com a pandemia, tais eventos foram suspensos para evitar aglomerações, mas devem ser retomados quando a situação se normalizar. O Gabinete de Leitura também conta com auditório e oferece computadores conectados à internet.

Entre os planos de Laor Rodrigues para sua gestão estão a criação de um prêmio para escritores da cidade e a produção de um livro que conta a história da entidade cultural sesquicentenária.

A ideia é que a obra seja escrita e publicada de forma colaborativa, envolvendo sócios, intelectuais, instituições de ensino e empresas privadas.

Em um País que, infelizmente, ainda tem dificuldades de preservar sua memória, é animador ver que uma instituição como o Gabinete de Leitura Sorocabano segue firme, forte e altivo, preservando a nossa história e cultura.

E mesmo com mais de um século e meio de vida está cheio de vida e projetos. Nada mais justo que desejar vida longa a essa instituição. Obrigado, Gabinete de Leitura Sorocabano! Parabéns e muitos séculos de vida!

Comentários