Editorial

Os novos super-heróis

A enfermagem é uma profissão que exige formação de nível superior específica e atrai tradicionalmente mais mulheres

O Brasil celebra em 12 de maio o Dia do Enfermeiro, o profissional que ao lado de médicos e assistentes estão na linha de frente da batalha contra a Covid-19. Não é por outro motivo que os enfermeiros são considerados hoje os novos super-heróis, aplaudidos em muitos países pelo trabalho que realizam em tempos de epidemia.

No mundo todo, são os profissionais que enfrentam maior risco devido à proximidade com os pacientes e estão entre as principais vítimas do novo coronavírus. No Brasil, os números são trágicos. Até o dia 6 de maio, 73 profissionais haviam morrido em consequência da doença por contaminação em ambiente de trabalho.

Em Sorocaba, com vários hospitais considerados de referência no combate à Covid-19, de acordo com o Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo, são 2.255 profissionais atuando em hospitais públicos e particulares, clínicas e centros de saúde.

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A enfermagem é uma profissão que exige formação de nível superior específica e atrai tradicionalmente mais mulheres. Na cidade elas são 85% da categoria. Como mostrou reportagem de Marcel Scinocca publicada pelo Cruzeiro do Sul na edição desta terça-feira, há uma unanimidade entre os profissionais sobre o que os levaram a abraçar essa carreira: só faz enfermagem quem tem vocação para cuidar do próximo.

A atuação dos enfermeiros tem mostrado uma categoria profissional na linha de frente do combate do coronavírus nos hospitais brasileiros e por isso tantos deles têm adoecido e muitos estão morrendo em uma taxa alarmante.

O levantamento realizado pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) mostra que até o início de maio foram identificados 73 óbitos de profissionais vítimas da Covid-19 em todo o País. As vítimas são jovens, em sua maioria. A maior parte tinha menos de 60 anos.

A cidade de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil e onde foram diagnosticados os primeiros casos, lidera com 18 mortos, seguida pelo Rio de Janeiro, com 14. A situação é tão preocupante que o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) criou uma plataforma para monitorar a morte dos profissionais de enfermagem em todo o Brasil, com o auxílio dos Conselhos Regionais.

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Além dessas mortes já confirmadas, a entidade aguarda o resultado de exames de 16 outros casos que ainda estão sob análise. O que traz apreensão para entidades como o Cofen é a desproporcionalidade das mortes na atual epidemia em relação a outros países.

Os Estados Unidos, que tem o maior número de vítimas da pandemia do planeta — quase 1,4 milhão de casos confirmados e 80 mil mortes –, havia perdido até a semana passada somente 46 profissionais de enfermagem, segundo entidades de classe.

Na Itália, que foi devastada pela Covid-19 e liderou o número de casos antes dos Estados Unidos, com 29 mil mortes, morreram vítimas da doença 35 enfermeiros, segundo entidade equivalente ao Cofen do Brasil.

Na Espanha o fenômeno também se repete com um resultado surpreendente: com mais de 25 mil mortes, teve apenas quatro mortes entre os profissionais de enfermagem. Dados da China, que sempre são contestados por falta de confiabilidade, indicam 23 enfermeiros mortos.

O que ocorre no Brasil, segundo os profissionais, é que eles estão mais expostos. Os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) corretos não estão disponíveis para todos os profissionais espalhados por todos os Estados da federação.

Além de equipamentos não adequados, muitas equipes não receberam treinamento para o uso dos EPIs e acabam por se contaminar pelo uso inadequado ou na hora da retirada dos equipamentos. A falta de profissionais de saúde também tem obrigado a turnos muito longos de trabalho, o que aumenta o risco de contágio.

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Há ainda o fato de que por necessidade de pessoal especializado no combate à pandemia, profissionais acima de 60 anos e com comorbidades não foram afastados e permanecem na linha de frente.

O fato é que muitos profissionais estão morando longe de suas famílias. Nas grandes capitais, hospitais têm alugado hotéis para os profissionais a fim de que evitem contato e risco de contaminação no núcleo familiar.

Embora os enfermeiros sempre neguem que sejam os novos heróis, em vários países europeus médicos e enfermeiros são aplaudidos com frequência em locais públicos pelo trabalho que estão realizando e esse reconhecimento levou muitas pessoas a sugerir que o Prêmio Nobel da Paz deste ano seja dado aos profissionais da saúde que morreram no combate à pandemia.

O prêmio, que já foi dado a políticos que nem sempre o mereceram, poderia ser outorgado à memória desses profissionais que estão sendo vítimas de sua devoção ao trabalho e de salvar a vida dos outros. Exemplos de vida e de generosidade.

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