Editorial

Os desafios de Doria

Na Assembleia Legislativa, a nova composição a partir de março obrigará o governador a negociar bastante para aprovar cada projeto de lei que apresentar

O novo governador dos paulistas se apresenta como um novo tipo de político. Pragmático, agressivo e workaholic assumido, terá grandes desafios pela frente para cumprir uma agenda de realizações que ele mesmo se impôs. Com um jeito novo de governar — cobra R$ 200 de cada secretário que chega atrasado às reuniões — ele está convencido de que a população quer serviços públicos de qualidade. Já declarou em várias ocasiões que quer levar o padrão de qualidade Poupatempo, sempre elogiado, para todo o serviço público do Estado. Os objetivos do novo governador são bem definidos, quer melhorar a educação que caiu muito nos últimos anos, pretende dar um novo padrão para o atendimento na saúde e melhorar a sensação de segurança dos cidadãos no Estado de São Paulo. Doria promete ainda ampliar as linhas do metrô paulistano; construir hospitais e centros de reabilitação; entregar pelo menos 1,2 mil creches; concluir o trecho norte do Rodoanel; criar batalhões da Rota e Delegacias da Mulher e 800 bases comunitárias da Polícia Militar, entre outras obras. Não disse até agora exatamente de onde virão os recursos para esses projetos, embora pregue um programa agressivo de privatizações. Muitos analistas veem nas suas propostas uma tentativa de pavimentar o caminho para uma candidatura presidencial em 2022.

João Doria não terá vida fácil, ao menos nos primeiros meses de governo. A começar pela situação interna de seu partido, o PSDB, onde ele é classificado como uma espécie de dissidente. Tanto que na cerimônia de posse, nenhum de seus antecessores compareceu. Não apareceram os ex-governadores José Serra, Geraldo Alckmin e Alberto Goldman. Luiz Antônio Fleury Filho, do MDB, foi o único ex-governador a prestigiar a cerimônia. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, representante do PSDB raiz, também não compareceu. Na Assembleia Legislativa, a nova composição a partir de março obrigará o governador a negociar bastante para aprovar cada projeto de lei que apresentar. Seus antecessores tinham a maior bancada da Casa. Alckmin contava com 19 correligionários, o PSDB agora terá 8. O maior partido na nova composição será o PSL de Bolsonaro, que antes não tinha nenhum deputado e agora tem 15. Em segundo lugar está o PT, que elegeu 10 parlamentares.

Doria, por seu lado, montou um secretariado de medalhões. Levou para seu governo sete ex-ministros de Temer e ainda os ex-presidentes da Caixa e da Infraero. Terá como secretário da Fazenda um peso-pesado: Henrique Meirelles, ex-ministro e ex-candidato à Presidência da República. O novo governador costura alianças a partir da composição do secretariado. Estão representados o PSD, com seu maior líder, Gilberto Kassab; DEM, representado pelo vice-governador Rodrigo Garcia; além de PP, PRB e MDB, todos com representantes no primeiro escalão. Doria também não esconde sua intenção de se aproximar cada vez mais do presidente Jair Bolsonaro e de seu partido, iniciativa que começou veladamente durante a campanha eleitoral, em detrimento da candidatura do tucano Geraldo Alckmin.

Para atingir seus objetivos, principalmente nas áreas de educação, saúde e segurança, Doria anunciou um audacioso programa de desestatização, da qual fazem parte parcerias público-privadas, concessões e privatizações. Prometeu também em seu discurso de posse que o Estado de São Paulo não vai gastar recursos públicos em áreas que podem produzir melhores resultados quando geridas pela iniciativa privada.

Doria foi eleito basicamente com os votos do interior do Estado. Ele venceu em 60% das cidades do interior no segundo turno, enquanto Márcio França (PSB) liderou na Capital e nas cidades do litoral. Analistas dizem que Doria tem rejeição entre os eleitores da Capital, pois quebrou a promessa de cumprir integralmente seu mandato de prefeito. Uma boa maneira de retribuir os votos que recebeu no interior será examinar os graves problemas que as diversas regiões do Estado enfrentam, e que não são poucos. Precisamos também que os deputados eleitos por Sorocaba e região, tanto os novos parlamentares como os veteranos, dediquem-se a levar ao novo governador as necessidades e aspirações da população, uma prática um pouco esquecida nos últimos anos. E Doria tem agora a responsabilidade de não frustrar a confiança que recebeu dos eleitores.

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