Editorial

O retorno da sífilis

Somente neste ano a SES confirmou 591 casos em Sorocaba. Durante todo o ano passado foram 2.037

A cada dia, seis pessoas são diagnosticadas com sífilis em Sorocaba, segundo informações da Secretaria da Saúde do município (SES). A sífilis é uma doença infectocontagiosa gravíssima, sexualmente transmissível, causada por uma bactéria, que pode comprometer vários órgãos como pele, coração, ossos, olhos, cérebro e sistema nervoso. E pode levar à morte se não for tratada a tempo. Ela também pode ser transmitida verticalmente, ou seja, de mãe para o feto; por transfusão de sangue ou ainda por contato direto com sangue contaminado ou secreções íntimas. Somente neste ano foram confirmados pela SES 591 casos em Sorocaba. Durante todo o ano passado foram 2.037. No mesmo período foram detectados 52 casos em que recém-nascidos foram contaminados pela mãe. Esses números tornam a sífilis, ao lado do HIV, um dos maiores problemas de saúde pública. Nos dois casos, a maioria dos contágios ocorre por meio de contatos sexuais e poderiam perfeitamente ter sido evitados.

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A sífilis tem uma história obscura. Há pesquisadores que afirmam que ela existiu na Antiguidade e foi descrita pelos gregos. Outros pesquisadores dizem que ela se originou nas Américas e foi levada para a Europa pelos primeiros colonizadores do continente, a partir de Colombo. Fato é que ela avançou rápido na Europa a partir do século 16 e foi um verdadeiro flagelo, pois não se sabia como ocorria a transmissão e não havia qualquer tratamento eficiente até o surgimento da penicilina, difundida após o final da Segunda Guerra Mundial.

No Brasil houve um grande aumento de casos de sífilis adquirida de 2015 para 2016 — 27,9% segundo dados do Ministério da Saúde. Foi registrado também aumento entre gestantes (14,7%) e sífilis congênita (4,7%) naquele período. Segundo o próprio MS, as causas do aumento da doença foram o desabastecimento de penicilina e o aumento dos diagnósticos, com distribuição de testes rápidos na rede pública de saúde. Em outras palavras: um número maior de pessoas soube que estava com a doença, mas ao mesmo tempo não havia remédio à disposição. O desabastecimento de penicilina se agravou a partir de 2014 no Brasil e outros países. O MS é responsável pela compra de medicamentos que chegam aos Estados e municípios. Em 2016, quando o número de casos estava explodindo, concentrou a compra em caráter emergencial para o tratamento de grávidas e seus parceiros. De lá para cá, o problema de desabastecimento parece que foi solucionado, mas o estrago já estava feito, com milhares de pessoas contaminadas e sem tratamento.

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Evidentemente não é só a sífilis que vem preocupando as autoridades sanitárias. Doenças que antes eram consideradas controladas estão voltando e fazendo vítimas. Houve um aumento de casos de tuberculose, por exemplo, que se tornou recentemente a doença infecciosa que mais mata em todo o mundo e é a principal causa de morte de pessoas vivendo com o HIV. Em 2016, estima-se que 10,4 milhões de pessoas adoeceram e 1,7 milhão de pessoas morreram de tuberculose. Para complicar, os pesquisadores lutam agora contra um tipo mais resistente e preocupante de tuberculose. Há ainda o aumento dos casos de hanseníase e a ameaça de uma nova epidemia de dengue que pode atingir alguns Estados brasileiros neste ano.

No caso da sífilis, a doença que vem preocupando as autoridades brasileiras e tem feito vítimas em Sorocaba, ao lado de outras doenças sexualmente transmissíveis, é bom lembrar que a maioria dos casos elas podem ser evitadas. A rede pública de saúde distribui preservativos e orientação sobre elas. No caso da sífilis, cujas manifestações podem se transformar em porta de entrada para o contágio de outras doenças como o vírus HIV, a rede oferece exames rápidos para diagnosticar a doença e há medicamentos eficazes para tratamento. Nada justifica o fato de que ela continue se espalhando e fazendo vítimas como se ainda estivéssemos no século 16.

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