Editorial

O desabafo do gestor

Na cidade foi registrado há algumas semanas aumento de internações de pacientes não graves na rede particular

Na última terça-feira, dia 17, por um daqueles descuidos eletrônicos absolutamente justificáveis, o padre Flávio Jorge Miguel Júnior, gestor e presidente da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, acabou enviando uma mensagem que deveria ser restrita ao corpo de médicos e colaboradores do hospital, para alguns veículos e profissionais de imprensa, entre eles o Cruzeiro do Sul.

No documento, em tom de desabafo, o sacerdote alerta para a situação da saúde em Sorocaba, em especial na Santa Casa e nas Unidades Pré-Hospitalares (UPHs), após o enfrentamento do pico da epidemia causada pelo novo coronavírus.

Ao descobrir que seu texto havia sido enviado por engano a veículos de informação, assumiu sua autoria e inclusive usou como tema de um artigo publicado na edição de ontem (18) na página 2 deste jornal.

As observações do padre Flávio mostram preocupação com a ocupação dos leitos dos hospitais em geral e da Santa Casa em particular, em consequência da demanda represada no período mais intenso da pandemia em Sorocaba.

Durante esses meses, as pessoas desenvolveram receio natural em frequentar ambientes hospitalares com medo de contaminação pelo novo coronavírus.

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Em muitos casos, as cirurgias eletivas, consultas e exames foram suspensos pelas próprias unidades de saúde.

Tratamentos que vinham sendo realizados também foram interrompidos, criando agora um grande represamento na área da saúde, que atinge hospitais e unidades pré-hospitalares.

O mesmo acontece com consultas médicas que foram adiadas no período na Policlínica Municipal, por exemplo, e que aumentaram ainda mais a fila de espera dos pacientes.

No documento interno o gestor da Santa Casa lembrou que no mês de março o próprio Ministério da Saúde sugeriu que os Estados cancelassem as cirurgias que não eram urgentes devido à Covid-19.

Com isso, os leitos cirúrgicos da Santa Casa permaneceram praticamente vazios por mais de quatro meses, uma medida equivocada e que causaria uma explosão de casos no final do ano, argumentou o gestor.

Houve o afastamento de pacientes das Unidades Básicas de Saúde, o que impediu a renovação de receitas médicas.

Com relação à falta de comparecimento aos procedimentos, o gestor da Santa Casa lembrou que 400 mulheres estavam agendadas para fazer mamografia no mês de junho, mas nem a metade compareceu para fazer o exame.

Ele lembrou também que na fase mais dura da pandemia, os idosos se afastaram de consultórios e unidades de saúde e não se trataram.

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Todos esses pacientes que ficaram por longo período sem procurar assistência agora necessitam de atendimento de urgência.

É o que está acontecendo na Santa Casa que está com 100% das vagas ocupadas. O Conjunto Hospitalar de Sorocaba e o Hospital Regional Adib Jatene também estão lotados.

É importante lembrar que esse problema não afeta apenas Sorocaba. É um fenômeno que está acontecendo em todo o País.

A ocupação total da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba não tem relação com os pacientes de Covid-19. As internações de pacientes devido ao coronavírus estão sob controle, segundo informações oficiais do hospital.

Na cidade foi registrado há algumas semanas aumento de internações de pacientes não graves na rede particular.

Acredita-se que essa alta no número de casos esteja concentrada em jovens que estão mais expostos ao vírus por deixarem o confinamento ao frequentarem locais com aglomerações.

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As autoridades da saúde também acompanham com certa apreensão o crescimento de casos em algumas regiões do País.

No Rio de Janeiro, enquanto médicos e cientistas constatam o aumento no número de casos da doença e há um alerta oficial para o aumento da estrutura de atendimento a esses pacientes, as praias e os bares seguem lotados, principalmente nos finais de semana.

A situação também é preocupante na cidade de São Paulo, onde foi registrado um aumento de 29,5% do número de casos de Covid nos primeiros 17 dias de novembro em relação ao mesmo período do mês de outubro.

Segundo a Fundação Seade, foram registrados 15.794 novos diagnósticos em novembro. Em relação às mortes, entretanto, felizmente a situação é diferente.

No mesmo período de novembro houve uma queda de 16,7% nos óbitos em relação aos mortos no mesmo período do mês passado.

De toda maneira, percebe-se como a pandemia comprometeu os atendimentos na área da saúde em todo o País e o tempo que será necessário para que tudo se normalize.

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