Editorial

O avanço do tráfico

A frequência com que estão sendo apreendidas drogas em Sorocaba é extremamente preocupante



Crédito da foto: Divulgação/PF

A frequência com que estão sendo apreendidas drogas em Sorocaba é extremamente preocupante. A prisão de traficantes, em geral vendedores de pequenas porções de drogas, e a apreensão de quantidades pequenas de substâncias ilícitas, sobretudo maconha, sempre fizeram parte da rotina da polícia na região e frequentaram as páginas policiais dos jornais e os noticiários de rádio e TV. O que se vê ultimamente é a prisão quase que diária de pessoas com muita droga, inclusive com algumas variedades pouco frequentes na região, como haxixe. Mas o que mais impressiona — e certamente preocupa as autoridades policiais — são as quantidades cada vez maiores desses produtos.

Nos últimos 30 dias, por exemplo, a polícia apreendeu um volume muito grande de entorpecentes e prendeu vários suspeitos de tráfico pesado. No início deste mês, por exemplo, uma ação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco), com apoio da Polícia Militar, desencadeou uma operação em todo o Estado com mais de 50 mandados de prisão e 30 de busca e apreensão. Na região de Sorocaba os agentes apreenderam bens das quadrilhas que superam R$ 1 milhão, entre automóveis e celulares, e ainda quase R$ 900 mil em dinheiro. Também nos últimos dias a Polícia Militar Rodoviária prendeu no pedágio de Boituva da rodovia Castelo Branco três homens suspeitos de integrar uma quadrilha que utilizava aeronaves, principalmente helicópteros, para introduzir drogas no País. Um dos presos é suspeito de ser o piloto do helicóptero apreendido pela Polícia Federal em Presidente Prudente com 500 quilos de cocaína, carga avaliada em mais de R$ 4 milhões, quando reabastecia em uma área afastada daquela cidade.

Há alguns anos, Sorocaba e outras cidades da região eram conhecidas como pertencentes à “rota caipira”, ou seja, faziam parte do corredor usado pelos grandes traficantes para trazer drogas que entravam no país pelo Paraguai. A região é bem servida de rodovias que ligam a região oeste do Estado com a Capital e outros pontos do país. As rodovias Castelo Branco e Raposo Tavares eram os corredores por onde passavam esses carregamentos. Grandes quantidades de drogas eram apreendidas nas rodovias, fruto principalmente de denúncias anônimas e, eventualmente, parte dessas drogas ficava para ser comercializada na região, mas o grosso dos produtos ilícitos seguia para abastecer o restante do país.

A prisão de dirigentes de uma facção criminosa no começo do mês e indícios de que grandes quantidades de drogas têm sido comercializadas na região mostram que mudou o perfil dos grupos criminosos que agem no município. Facilidades de logística podem ter sido determinantes nessa mudança. Não podemos esquecer que com frequência a polícia aprende cargas gigantescas de cigarros contrabandeados do Paraguai em armazéns e residências disfarçadas no município, o que mostra a facilidade de deslocamento de cargas com produtos proibidos. Um bom indício de como a distribuição de drogas está funcionando na região foi a apreensão, ontem, de mais de 500 tijolos de maconha em uma chácara na zona rural de Mairinque, estrategicamente localizada às margens da rodovia Castelo Branco, altura do km 68. O local, segundo policiais da Deic que trabalharam no caso, funcionava como uma espécie de “atacadão” da droga para abastecer pontos de distribuição de uma facção criminosa. Assim como havia esse entreposto de maconha, é possível que existam outros centros de distribuição de drogas funcionando na região. A venda de drogas é uma operação de risco que é devidamente calculada pelos traficantes. Quando uma carga de entorpecentes é apreendida ou um ponto de vendas localizado, certamente a maior parte do “negócio” continua funcionando.

O pequeno varejo de drogas, aquele que tem na linha de frente jovens e adolescentes muitas vezes dependentes químicos, dá bastante trabalho à polícia. É como enxugar gelo, tal a quantidade de pequenos traficantes espalhados pela região. É por meio desse comércio que dependentes ou curiosos compram suas porções de drogas. Mas a identificação e prisão dos grandes distribuidores, ligados ao tráfico internacional e que movimentam grandes quantidades de dinheiro, como vem ocorrendo de uns tempos a esta parte, é que deve ser a missão mais importante da autoridade policial. A neutralização dos chefes do tráfico e a apreensão de grandes quantidades de drogas afeta toda a capilaridade da distribuição e diminui a oferta de entorpecentes nas ruas.

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