Editorial

Nova forma de aprender História

O cemitério da Saudade é o mais antigo de Sorocaba e lá estão sepultadas figuras importantes que fazem parte da história

Durante as celebrações dos 365 anos de aniversário de Sorocaba, na semana passada, uma das atrações chamou atenção de muita gente: uma visita guiada ao cemitério da Saudade. Embora esse tipo de atividade já tenha ocorrido em outras ocasiões — geralmente realizada pela equipe da Biblioteca Infantil –, ela se alinha a eventos de cunho cultural que são realizados em muitos cemitérios importantes como o da Recoleta, em Buenos Aires, da Consolação, em São Paulo, e no cemitério de Paris, onde além da beleza da arquitetura dos túmulos, muitas vezes assinados por arquitetos famosos e da riqueza das esculturas, estão sepultadas figuras de projeção internacional.

O cemitério da Saudade é o mais antigo de Sorocaba e lá estão sepultadas figuras importantes e que fazem parte da história do município. Até o período colonial, os sepultamentos nas cidades brasileiras ocorriam junto às igrejas. Por questões de saúde pública e até mesmo pela falta de espaço nas áreas junto às igrejas, surgiram as primeiras leis recomendando a construção de cemitérios. O cemitério da Saudade foi inaugurado em 1863 em local alto, distante da região central da cidade e sem risco de contaminação, junto ao antigo Largo do Piques, atual praça Pedro de Toledo, local que serviu para pouso de tropeiros e onde escravos eram enforcados. Inicialmente era fechado na frente com muros de taipa e cercado por grades fundidas na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema.

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Ocupando hoje uma área de 45 mil metros quadrados, o cemitério da Saudade tem quase 8 mil sepulturas e é rico em arte funerária, túmulos com construções elaboradas e esculturas de reconhecido valor artístico. Há, como em todo cemitério, uma grande quantidade de imagens de anjos, emissários divinos e a própria figura de Cristo em várias construções. Entre as personalidades que ali estão sepultadas podemos destacar o Monsenhor João Soares do Amaral, o místico João de Camargo, o professor Francisco de Paula Xavier de Toledo, o sacerdote e historiador Aluísio de Almeida, entre outros. Um túmulo muito visitado é o da menina Julieta Chaves que, aos 7 anos, desapareceu de casa e foi encontrada morta junto a um córrego, vítima de violência. Seu túmulo foi construído em mármore na forma de capelinha, doação do empresário Nicolau Scarpa.

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Prevendo esse tipo de visitação, a Prefeitura de Sorocaba implantou em 2015 QR Code (código para ser lido por um aplicativo de celular) nos túmulos mais procurados. O visitante pode acessar informações detalhadas sobre a pessoa sepultada. O túmulo mais visitado é o do místico João de Camargo (1858 -1942), que foi liberto e construiu a capela Senhor do Bonfim.

Em várias partes do mundo, cemitérios se tornaram atrações turísticas, com guias especializados e público constante. Em São Paulo, o cemitério da Consolação recebe visitantes diariamente para conhecer túmulos de personalidades, políticos, artistas, conhecer um pouco de história e apreciar as esculturas ali presentes. O próprio arco de entrada é muito admirado, pois foi criado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, responsável por muitos prédios históricos de São Paulo. Um dos túmulos mais visitados é o de Domitila de Castro Canto e Melo que passou para a história como a Marquesa de Santos. Ela contribuiu com 4 contos de réis para a construção da necrópole inaugurada em 1858. O primeiro corpo ali sepultado foi o do poeta e abolicionista Luiz Gama. Outros túmulos muito visitados são dos escritores modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade e da pintora Tarsila do Amaral. Mas os mais luxuosos são os túmulos da família Matarazzo.

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Buenos Aires explora há tempos seus cemitérios como atração turística. O da Recoleta, de 1822, atrai turistas interessados em conhecer as criptas de pessoas famosas, como Eva Perón, ali sepultada depois que seu cadáver ficou desaparecido por muitos anos. E o cemitério Père Lachaise, de Paris, é tão famoso quando o Museu do Louvre onde estão sepultadas figuras como Édith Piaf, Molière, Frederic Chopin e Oscar Wilde.

Há muito o que aprender e apreciar nessas visitas ao cemitério da Saudade. Muito de nossa história e de personalidades importantes do município pode ser contada a partir dos jazigos ali existentes. A iniciativa de realizar visitas monitoradas é um ponto positivo para a preservação de nossa história.

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