Editorial

Nossa Linha Vermelha

A barbárie já se instalou nas áreas periféricas da cidade há um bom tempo

Na tarde do último domingo muitos sorocabanos que passaram pela rodovia Raposo Tavares — sim ela mesma, palco diário de tragédias — assistiram a um espetáculo deprimente e covarde.

Pelo que foi apurado até agora, um grupo de jovens teria se assustado com a presença de uma viatura da Guarda Civil Municipal que fazia patrulhamento em prédios públicos da Vila João Romão e atravessou as pistas da rodovia pulando as grades de proteção ali existentes.

O local fica praticamente embaixo de uma passarela construída após muitos pedidos dos moradores. Nessa correria, um dos jovens foi atropelado por um veículo que trafegava na via expressa.

O motorista certamente não teve tempo de frear seu veículo, uma vez que foi surpreendido por uma pessoa saltando em frente a seu carro após pular o alambrado.

Depois do impacto, o motorista parou o veículo para socorrer a vítima e chamou por socorro, procedimento correto diante de um acidente dessa natureza.

Mesmo assim, acabou sendo vítima de agressões de toda ordem dos outros jovens. Além de ser agredido, sem qualquer intervenção da guarnição da GCM em seu favor, teve seu carro vandalizado e depois queimado.

No local, já ocorreram assaltos em que veículos são apedrejados e os motoristas precisam parar por conta de avarias nos carros. Esse ato de barbárie não ocorreu à noite, nem de madrugada, mas em uma ensolarada tarde de domingo.

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O espancamento e o incêndio do carro, uma ocorrência trágica e covarde ao mesmo tempo, infelizmente, representa a ponta de um iceberg de violência e desrespeito às mais elementares normas de educação e civilidade.

Atos como esses, muitas vezes não noticiados, estão se tornando comuns em nossa cidade.

A barbárie já se instalou nas áreas periféricas da cidade há um bom tempo, embora muitos cidadãos não tenham se dado conta dessa nova e triste realidade.

Na segunda quinzena de janeiro, a suspeita de que uma guarnição da GCM teria alguma relação com o desaparecimento de um jovem que circulava pelo bairro Vitória Régia e que dias depois teve seu corpo encontrado nas águas do rio Sorocaba, foi o estopim de uma reação irracional e violenta por parte de alguns moradores, incitados por outro grupo de jovens, possivelmente os mesmos que fugiram quando a guarnição se aproximou de um ponto de venda de drogas conhecido naquela região.

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O rapaz desapareceu na sexta-feira e seu corpo foi encontrado no domingo. Nesse mesmo dia, moradores fecharam ruas e atearam fogo em pneus dando início a uma série de atos de vandalismo e intimidação.

Jovens retiraram o motorista do ônibus que atende o bairro e tomaram posse do veículo que foi colocado próximo a uma ponte que dá acesso ao Vitória Régia, impedindo o tráfego de veículos.

Em seguida o ônibus foi queimado. Na sequência, dois caminhões, um do Saae e outro de uma prestadora de serviços para a autarquia, foram roubados e igualmente incendiados.

A atitude de alguns poucos moradores prejudicou temporariamente o transporte coletivo da comunidade, causou prejuízos e atrapalhou obras importantes que o Saae realizava no local, pois os funcionários passaram a ter de trabalhar com escolta, durante um período.

Infelizmente foram surgindo na cidade alguns bairros e comunidades onde impera a violência e aos poucos o poder público vai se afastando. E quando o Estado não está presente quem assume são os interessados em ilegalidades e no crime.

Prestadores de serviços que atuam em Sorocaba têm bem delineado o mapa do perigo da cidade. Funcionários dos Correios que entregam encomendas ou de empresas de energia elétrica e TVs a cabo sabem muito bem os bairros em que não devem entrar, principalmente se tiverem que cumprir ordem de corte de abastecimento por irregularidades ou falta de pagamento.

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São comunidades onde até a polícia tem receio de entrar sem um grande aparato. Deixar se multiplicar esse tipo de comunidade é um erro sem retorno e pode levar a grandes guetos como ocorre em grandes centros.

Não resta dúvida de que a grande maioria dos moradores dessas comunidades é composta por gente honesta e trabalhadora, mas que muitas vezes, infelizmente, tem que se submeter por questão de sobrevivência.

É preciso repensar a atuação do poder público em certas comunidades. Não é só a presença policial ou de setores de segurança pública. É preciso que o Estado seja mais presente em todas as áreas.

Caso contrário, corremos o risco de ter de conviver com áreas dentro do próprio município onde a lei seja reiteradamente ignorada.

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