Editorial

Menos velocidade e mais consciência

Apesar do número de acidentes diminuir, total de mortes aumentou no trânsito de Sorocaba de 2019 para 2020

Matéria publicada domingo (7) neste Cruzeiro do Sul, de autoria do repórter Marcel Scinocca, trouxe um dado alarmante. O número de mortes no trânsito em vias administradas pelo município de Sorocaba aumentou 24% no ano passado, se comparado com 2019. Foram 41 mortes registradas em 2020, contra 32 do ano anterior.

O levantamento foi feito a partir de informações da Urbes, a empresa pública que gerencia o trânsito na cidade. Além do crescimento de 24% nas vítimas fatais, o total de mortes registrado em 2020 também é o maior desde 2015, interrompendo uma série que vinha em ritmo decrescente até 2018. Em 2015, por exemplo, foram 33 mortes.

No ano de 2016, chegou a 32. Caiu mais ainda em 2017, indo a 29. Por fim, chegou a 23 em 2018. O índice voltou a aumentar em 2019 e apresentou esse pico em 2020.

Se por si só o aumento do total de fatalidades já é preocupante, um fato torna a estatística assustadora. É preciso lembrar que a maior parte do ano passado — mais precisamente a partir de março — transcorreu sob a sombra da pandemia do novo coronavírus. Ou seja, houve crescimento no número de mortes mesmo com menos movimento, já que as medidas restritivas deixaram comércio e serviços fechados em muitos dias.

Como estaríamos, então, se não fosse a pandemia? Uma coisa é certa. Os próprios levantamentos mostram que, curiosamente, houve menos acidentes no mesmo período. Para se ter ideia, foram 1.078 no ano passado. A série histórica disponibilizada pela Urbes, com dados a partir de 2012, mostra que nesse primeiro ano a cidade registrou 3.079 acidentes nos quais houve vítimas.

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Foram registrados 8,5 acidentes por dia, em 2012. O número caiu para cerca de três por dia, em 2019. Por outro lado, o número de acidentes graves aumentou, pois mais gente morreu. Em 2012, era uma morte para cada 64 sinistros. No ano passado, foi registrado uma morte para cada 26 acidentes. Portanto, mesmo com um número menor de acidentes, o número de mortes foi maior.

A conclusão a que se chega é que os acidentes — os sinistros, como são tecnicamente chamados — têm sido mais violentos em Sorocaba e também em todo o País, afinal trata-se de um fenômeno nacional. E por que isso tem acontecido? São vários os motivos. O primeiro certamente é a velocidade. Quanto mais rápido estiver o veículo, maiores são as chances de acidentes graves.

Segundo especialistas, outra conclusão é que as pessoas têm deixado de usar o cinto de segurança, em especial o traseiro, o que pode levar o(s) passageiro(s) a ser(em) ejetado(s) do veículo. No caso das motocicletas, o excesso de velocidade atrelado ao uso incorreto do capacete (solto, maior que o tamanho da cabeça do usuário etc) resulta em lesões praticamente fatais.

Apesar de difícil comprovação, outros fatores fazem parte dessa equação. Como, por exemplo, as novas tecnologias, as redes socias e os aplicativos de mensagens instantâneas. Quem nunca deu uma olhadinha nas mensagens de WhatsApp mesmo enquanto estava guiando?! É óbvio que o uso de celulares aumentou exponencialmente o risco de acidentes de trânsito.

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Basta uma mera distração para uma colisão. Há milhares de exemplos disso. Outra mudança que certamente influencia nessa alta de acidentes graves com vítimas é o “novo normal”. Com a pandemia tivemos um boom de empresas oferecendo seus produtos e serviços a domicílio, fazendo o mercado de entregas explodir. E mercado de entregas significa veículos, sobretudo motocicletas.

O número de motos rodando nas ruas deu um salto, e com ele os acidentes. Tanto que em Sorocaba foi lançada a ação Motociclista Seguro, voltada à segurança na circulação específica de motos. Em toda essa equação, também não podemos deixar de lado a fiscalização.

Se já tínhamos um regramento frágil e falho para punir infratores do trânsito, isso piorou com o afrouxamento da legislação.

Já com relação ao ranking das vias de Sorocaba com trânsito mais violento, a avenida Itavuvu lidera em todos os anos analisados. Um dos principais corredores da zona norte da cidade, a via registrou 1.032 acidentes com vítimas desde 2012. Foram 38 mortes contabilizadas no período.

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Segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana, o fato está diretamente atrelado à maior quantidade de veículos e pedestres que circulam por essas vias. E o que fazer? O primeiro ponto para combater esse alarmante número de vítimas é o mesmo de sempre: conscientização. Regras básicas como o uso de cinto de segurança em qualquer trecho salvam vidas.

É preciso lembrar que o trânsito mata, sim. É necessário atenção absoluta ao dirigir um veículo. Isso sem falar na obviedade de nunca beber antes de guiar. Outro ponto da prevenção diz respeito ao Poder Público, em todas as esferas. É necessário manter as vias seguras para que não se tornem fator de risco e até armadilhas para mais acidentes.

Nas rodovias federais, por exemplo, notoriamente mal administradas em comparação com trechos estaduais, desde agosto os números de sinistros vêm sendo superiores ao período pré-pandemia, segundo alguns estudos. Portanto, mais atenção, menos velocidade, mais consciência!

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