Editorial

Menos Carnaval e mais responsabilidade

A pandemia vai passar e haverá outras chances de folia, mas, para isso, é preciso sobreviver à atual

Dizem que tudo no Brasil só começa depois do Carnaval. Não neste ano. Por conta da pandemia, que ainda não deu trégua, pela primeira vez em mais de um século, não haverá Carnaval oficial por aqui.

No calendário, a folia estava marcada para este final de semana, mas a festividade foi suspensa em todo o País. Vinte estados cancelaram inclusive o feriado e pontos facultativos.

Somente o Distrito Federal — claro! — e os estados do Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Roraima mantiveram o feriado.

Curiosamente, não é a primeira vez que a tradicional festa é suspensa. Em 1892, quando o Carnaval era uma festa violenta — para os padrões da época — em que as pessoas fantasiadas saíam às ruas e se atacavam com farinha, água e frutas, a data foi alterada para junho devido a problemas estruturais, como falta de limpeza das ruas.

Nesse período, o Brasil lidava com o controle da febre amarela e outras doenças. O adiamento, porém, não foi respeitado pelos foliões e houve comemoração em fevereiro e junho.

O segundo adiamento ocorreu em 1912, por conta da morte do ministro das Relações Exteriores, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco.

Ele faleceu uma semana antes das festas. O evento foi adiado para abril. Porém, quando chegou o sábado de Carnaval, o povo foi para a rua e acabou o luto. Na prática, houve folia duplicada e o povo ainda fez marchinhas sobre a morte do barão.

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O último Carnaval suspenso aconteceu em 1918, justamente durante a Gripe Espanhola, pandemia que deixou cerca de 50 milhões de mortos em todo o mundo.

“A gripe chegou, arrasou, matou milhares, mas em determinado momento ela foi embora, por volta de outubro, novembro. Isso fez com que o evento do ano seguinte (1919) tenha sido dos mais irreverentes que se tem notícia. O povo foi para a rua com a necessidade de celebrar o fim daquela coisa terrível”, explicou o professor Paulo Miguez, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ao Estado de Minas.

Ou seja, até as edições suspensas de antigamente lembram o Brasil dos dias de hoje. Mesmo com a suspensão atual, já pipocam casos de agendamento de festas particulares e privadas para festejar a data.

Como não podem contar com a conscientização da população para a gravidade do momento, as autoridades estão se precavendo. Em todo o Brasil estão previstas ações para coibir aglomerações e festas clandestinas.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a prefeitura usará comboios para localizar festas e blocos que desrespeitem os protocolos sanitários. Uma força-tarefa para impedir as aglomerações também foi criada pela Prefeitura de Maceió.

Caso as normas sejam descumpridas, o infrator poderá ser denunciado pela Procuradoria Geral e responder pelo crime contra a saúde pública.

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Em Recife, as equipes de Controle Urbano realizarão rondas nos mesmos locais das festas carnavalescas dos anos anteriores.

Em Belo Horizonte estão suspensas autorizações para eventos em propriedades particulares e logradouros públicos.

A suspensão do Carnaval também significa prejuízos. Só no Rio de Janeiro estima-se uma perda de R$ 5,5 bilhões com o cancelamento do evento. O valor representa 1,4% do PIB (Produto Interno Bruto) da cidade.

Em Salvador, que leva multidões atrás dos trios elétricos, a estimativa da prefeitura é que a festa tenha movimentado R$ 1,8 bilhão, em 2020, em gastos com hospedagem, alimentação e serviços, gerando cerca de 215 mil empregos temporários.

Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, R$ 8 bilhões vão deixar de circular no País e cerca de 25 mil empregos temporários não serão criados. Algumas cidades ainda estão tentando manter o adiamento da festa para julho, mas tudo vai depender da vacinação.

Ainda que o cancelamento do Carnaval entristeça foliões, é preciso pensar primeiramente na saúde. Qualquer festa que reúna várias pessoas em um espaço físico restrito é totalmente contraindicada. O interesse maior é a preservação da vida e o respeito ao próximo.

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É preciso lembrar que as contaminações pela Covid-19 começaram a avançar no Brasil justamente em março de 2020, inclusive após as grandes aglomerações do feriado de Carnaval.

Quando a festa começou, em 22 de fevereiro de 2020, a China já tinha mais de 80 mil pessoas infectadas e outros países da Europa e da Ásia já anunciavam números alarmantes de infectados.

Na época, não havia evidências científicas de que o vírus circulava no Brasil. O primeiro caso de Covid no País foi confirmado um dia depois da quarta-feira de cinzas, em 26 de fevereiro, em um viajante vindo da Itália.

Em 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia e no dia seguinte a primeira morte pela doença foi registrada no Brasil.

Não se trata de mau humor contra a alegria das pessoas nem recriminar a festa. Mas tal folia é indispensável? Para o bem ou para o mal, Carnaval tem em todos os anos.

A pandemia vai passar e haverá outras oportunidades para festas, confraternização e comemorações. Mas, para isso, é preciso sobreviver à atual pandemia.

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