Editorial

Lixo tóxico

Em contato com a umidade, calor e água, os componentes tóxicos vazam e contaminam o solo, os cursos d’água e lençóis freáticos, atingindo a flora e a fauna de regiões próximas

Qualquer pessoa na atualidade está cercada de dispositivos eletrônicos que têm como fonte de energia pilhas e baterias. Elas estão presentes nos celulares, tablets, notebooks, navegadores, controles remotos, brinquedos, lanternas, alarmes e uma infinidade de aparelhos extremamente úteis. Se o comércio hoje oferece baterias e pilhas para venda em qualquer esquina — lojas especializadas, lojas de conveniência, supermercados, padarias, bancas de revistas –, oferecendo comodidade aos consumidores, o mesmo não acontece com o recolhimento dentro de padrões seguros desses dispositivos usados, com todo seu potencial tóxico, a chamada logística reversa. Ou seja, quem coloca esses produtos no mercado, que pelo seu potencial poluidor não podem ser descartados em qualquer lugar, precisa oferecer toda a estrutura para seu recolhimento, com número de postos compatível com os pontos de venda.

Pilhas e baterias contêm metais pesados como chumbo, mercúrio, níquel e cádmio. Depois de usadas, em pouco tempo começam a apresentar vazamentos, mesmo em ambiente doméstico. Jogadas no lixo comum, que na melhor das hipóteses irão para um aterro sanitário, poderão contaminar o meio ambiente. Em contato com a umidade, calor e água, os componentes tóxicos vazam e contaminam o solo, os cursos d’água e lençóis freáticos, atingindo a flora e a fauna de regiões próximas. Cálculo de especialistas mostram que uma única pilha descartada irregularmente pode contaminar aproximadamente 20 mil litros de água. Os metais pesados são capazes de causar doenças renais, cânceres de diversos tipos e problemas no sistema nervoso central. Muitas vezes o lixo é encaminhado a cooperativas de reciclagem e as pilhas acabam sendo manuseadas por pessoas que não foram treinadas para manipular esse tipo de resíduo tóxico. Não podemos esquecer que todo esse material altamente tóxico está diariamente nas mãos inclusive de crianças com seus jogos eletrônicos, controles remotos e celulares.

Existe uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 2008, que determina que os estabelecimentos que comercializam pilhas e baterias portáteis, baterias automotivas, baterias de chumbo-ácido e industriais entre outros, devem receber os produtos usados. Outro artigo prevê que não serão permitidas formas inadequadas de disposição ou destinação final desses produtos como o lançamento a céu aberto, queima ou incineração e lançamentos nos corpos d’água. A tendência é do perigo da contaminação aumentar ainda mais. Carros elétricos e híbridos, motos e até patinetes equipados com potentes baterias estão chegando ao mercado. O potencial tóxico dessas baterias tira o sono até dos fabricantes dos veículos, que ainda não sabem ao certo o que fazer com elas. Elimina-se a poluição do ar, mas cria-se uma bomba-relógio tóxica difícil de desarmar.

Como indicam pesquisas de órgãos técnicos e o que se vê no dia a dia, são poucas as pessoas que procuram um local de descarte correto de pilhas ou baterias. Muita gente até junta baterias e pilhas usadas, mas diante da dificuldade de encontrar um local de descarte, acaba jogando o material no lixo comum. Para isso contribuem dois fatores. O primeiro é que a população não tem conhecimento suficiente sobre os prejuízos que esses materiais podem trazer para a natureza e para a saúde do ser humano. Os próprios fabricantes que gastam fortunas com a publicidade mostrando as qualidades de seus produtos deveriam gastar o mesmo valor para mostrar a toxidade dos produtos após o uso e a necessidade de seu descarte correto. Outro ponto que precisa melhorar diz respeito ao número de postos de coleta existentes. Ele é infinitamente menor do que os dos pontos de venda. Em Sorocaba, além da sede da Secretaria do Meio Ambiente — que a população não sabe onde fica — e de uma cooperativa de reciclagem do Jardim Iguatemi, temos mais 14 pontos de coleta, geralmente junto a hipermercados e comércios atacadistas. É muito pouco em relação aos pontos de venda. Se esse número de postos fosse multiplicado por dez ainda seria pouco, tendo em vista as dimensões do município.

Está aí uma boa bandeira a ser empunhada por nossos vereadores e em especial pela Secretaria do Meio Ambiente de Sorocaba: promover campanhas de esclarecimento sobre o assunto para a população e cobrar o cumprimento da resolução da Conama, com a implantação de postos de coletas de pilhas e baterias em quantidade suficiente para atender toda a população.

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