Liberdade e educação
A Loja Maçônica Perseverança III completa hoje 150 anos de existência. Foi fundada por 24 membros dissidentes da Loja Maçônica Constância, a única então existente na cidade, na noite de 31 de julho de 1869, usando como local para o encontro a casa de um de seus fundadores, Leite Penteado, localizada na esquina da rua da Penha com a atual Padre Luiz. O que unia esse grupo de cidadãos sorocabanos era a indignação com o estado das coisas naquele momento histórico: a existência de um sistema que permitia que seres humanos fossem mantidos escravizados apenas em função da cor de sua pele. O Brasil era, naquele altura do século 19, uma das poucas nações do planeta que ainda mantinha um sistema escravagista, uma vergonha para a humanidade. Leite Penteado, ao justificar a fundação da nova Loja Maçônica, lembrou que em companhia de outro maçom presente na reunião, o jornalista e advogado Ubaldino do Amaral Fontoura, havia participado de uma sessão na Loja América, na cidade de São Paulo, onde conversaram com um entusiasmado estudante de Direito chamado Ruy Barbosa que compartilhava o desejo de se engajar na campanha pela libertação dos escravos, um tema precioso para a Maçonaria, assim como a proclamação da República.
As palavras de Leite Penteado receberam apoio unânime dos presentes, mas foi o pronunciamento de Ubaldino do Amaral, mais objetivo e contundente, que mostrou os alicerces sobre os quais deveria ser erguida a nova Loja Maçônica: o binômio Liberdade e Educação, tendo início com a luta pela libertação das crianças, filhas dos cativos, 19 anos antes da assinatura da Lei Áurea, um desafio que teve repercussão nacional. A Loja Maçônica Perseverança III começa enfrentando desafios -- o primeiro deles, combater o regime escravocrata -- seguindo o lema da instituição histórica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Durante um período, membros da Loja compravam escravos para alforriá-los em seguida, como está registrado em atas históricas. Mas era preciso avançar mais e a Perseverança III fundou, contra todos os preconceitos e tramas da época, a primeira escola noturna para alfabetização de adultos. Era uma maneira de fazer com que as pessoas que acabavam de sair da escravidão pudessem exercer sua cidadania com plenitude. Era preciso que essas pessoas recebessem educação, que aprendessem a ler e escrever, condições fundamentais para a vida em sociedade, em uma cidade que começava a se industrializar.
De lá para cá, norteada pelos ideais de Liberdade e Educação, a Perseverança III muito construiu e contribuiu para reforçar esses pilares. Assim surgiram entidades como o Lar Escola Monteiro Lobato, a Vila dos Velhinhos, a Associação Protetora dos Insanos, o Colégio Politécnico, o jornal Cruzeiro do Sul, a rádio Cruzeiro FM 92.3, a Liga Sorocabana de Combate ao Câncer, todas instituições mantidas e administradas pelos membros da Loja, sempre sem qualquer fim lucrativo ou remuneração.
Milhares de pessoas foram atendidas por essas entidades de forma gratuita, milhares cresceram ou passaram parte de suas vidas abrigadas em algumas dessas instituições, recebendo o cuidado e o carinho que o Estado ou a própria sociedade não puderam oferecer. Milhares de jovens e adultos se beneficiaram com bolsas de estudo para escolas e faculdades do município e até em diversos cursos no exterior por bolsas patrocinadas pela Perseverança III e suas entidades, especialmente a Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), que hoje também faz aniversário e comemora 55 anos de existência. O centenário jornal Cruzeiro do Sul, hoje o maior jornal do interior do Estado de São Paulo, e a rádio Cruzeiro FM 92.3 são referência nacional em qualidade de informação e credibilidade.
Passados 150 anos da primeira reunião dos fundadores da Perseverança III percebe-se sua dimensão histórica, seus feitos e suas conquistas. Por ela passaram figuras ilustres de praticamente todas as áreas que contribuíram para o progresso do País com um idealismo inabalável. Geração após geração, foram unidos por um pacto de cidadania, cavando masmorras aos vícios e erigindo edifícios às virtudes, combatendo o bom combate.