Editorial

Inferno astral

Denúncias de malfeitos são sempre ruins para agentes políticos e afetam diretamente seu desempenho

O prefeito José Crespo (DEM) vai precisar de toda sua habilidade política e poder de convencimento para, nos próximos meses, enfrentar as denúncias que estão atingindo seu governo, algumas já oficializadas em inquéritos policiais. Além das investigações em curso, também terá de enfrentar boa parte dos integrantes da Câmara Municipal, onde está em curso uma CPI sobre o trabalho voluntário na Prefeitura — na realidade uma investigação sobre a atuação de ex-assessora na Prefeitura de Sorocaba.

Paira ainda sobre a cabeça do prefeito a possibilidade de os vereadores formarem uma Comissão Processante, que tem poder de cassar seu mandato, sobre uma série de denúncias. Nunca é demais lembrar que o prefeito, um fato raro na história de Sorocaba, já foi cassado pelos vereadores e ficou afastado da Prefeitura por 41 dias, quando foi substituído pela vice-prefeita, Jaqueline Coutinho (PTB), antes mesmo de concluir o primeiro ano de seu mandato. O registro histórico da administração da vice não é dos melhores.

Na semana passada, Sorocaba foi surpreendida por uma inédita operação policial em algumas secretarias municipais. A operação levada a efeito pela Polícia Civil — e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que entrou em caso de foro privilegiado — batizada de Casa de Papel, apreendeu documentos e computadores de três secretarias e resultou na demissão de dois secretários e afastamento de outro: de Cultura e Turismo, Comunicações e Eventos e Licitações e Contratos. No inquérito policial constam várias irregularidades em contratos e licitações das duas primeiras secretarias, além de possíveis desvios de recursos.

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Em outra frente há o caso de ex-assessora, já pivô da cassação do prefeito em agosto de 2017. Afastada da Prefeitura desde aquele episódio que teve origem em diplomas supostamente falsos apresentados pela ex-assessora, ela novamente foi motivo para a criação de outra Comissão Parlamentar de Inquérito no Legislativo municipal, desta vez para apurar as denúncias de que continuava trabalhando no Palácio dos Tropeiros. Segundo o prefeito, esta senhora que lhe assessorou desde a campanha eleitoral, fazia trabalho voluntário para a administração municipal.

No meio desses dois imbróglios, suficientes para tirar o sono de Crespo, veio a público nos últimos dias o teor do depoimento que o ex-secretário de Comunicação deu à polícia a respeito do caso, conforme foi noticiado por este jornal. Com riqueza de detalhes, o ex-secretário disse que a suposta voluntária recebia um salário de R$ 11 mil para atuar na Prefeitura e que despachava rotineiramente no sexto andar do Paço, o mesmo do gabinete do prefeito. O pagamento seria feito por uma agência de publicidade que mantinha contrato com a Prefeitura. Um acordo teria sido feito para que os salários pagos à voluntária assessora saíssem de um fundo publicitário no valor de R$ 20 milhões da Prefeitura. O mesmo ex-secretário havia prestado depoimento à CPI do Voluntariado e informado que pouco sabia sobre o assunto e da participação da senhora na administração municipal. Ontem, por meio de seu advogado, pediu para retificar seu depoimento, mantendo as informações que forneceu à polícia. O prefeito José Crespo se diz perplexo com as acusações que, para ele, são totalmente falsas.

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As denúncias que se tornaram públicas após esse depoimento, e de servidores e empresários envolvidos nos casos suspeitos são muito graves. O exame de todo material apreendido durante a semana passada somado aos novos depoimentos a serem colhidos pela polícia tendem a aumentar ainda mais o problema. Denúncias de malfeitos são sempre ruins para agentes políticos e afetam diretamente seu desempenho, pois têm que despender tempo e usar seu prestígio político para se defender. Para o prefeito Crespo o momento é praticamente difícil, uma vez que as obras de impacto que prometeu para seus eleitores mal começam a sair do papel, praticamente um ano e meio antes do final de seu mandato.

Quando era vereador, em mais de uma ocasião o atual prefeito afirmou que havia várias quadrilhas atuando na Prefeitura. Foi eleito prefeito depois de várias tentativas e ainda tem tempo de mostrar onde e como atuam essas quadrilhas. Esclarecer as denúncias que atingem sua administração é uma tarefa urgente. Ao mesmo tempo cabe aos seus assessores se defenderem com a verdade.

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E cabe, em especial, à Câmara de Vereadores, evitar oportunismos que poderão levar ao fortalecimento deste ou daquele potencial herdeiro do Executivo e como consequência, uma administração não qualificada, não eleita pela população e assim dar continuidade à guerra soturna que assola Sorocaba há anos. Sorocaba merece mais que isso.

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