Editorial

Imunização necessária

Vacinação é o assunto do editorial do Cruzeiro do Sul deste domingo (1)
Você já se vacinou contra a gripe este ano?
Especialistas afirmam que vacinação é fundamental, especialmente neste momento da pandemia de Covid-19. Crédito da foto: Vinícius Fonseca / Arquivo JCS (12/5/2020)

 

Quando a questão é saúde pública, não existem males maiores ou menores. Ao contrário do que sugeria, genericamente, Aristóteles, nestes casos, não se pode escolher suportar uma enfermidade supostamente menos grave, desde que fiquemos livres de outra classificada como mais dolorosa. Lamentavelmente, é justamente essa (i)lógica temerária que optamos por adotar ao adiarmos — ou simplesmente abandonamos — qualquer tipo de tratamento com a justificativa de estarmos nos protegendo da exposição ao novo coronavírus. Existem protocolos sanitários de eficácia comprovada contra a Covid-19 que nos permitem comparecer a uma unidade básica de saúde ou clínica para realizar exames preventivos e, sobretudo, levar os filhos menores para serem imunizados contra um sem-número de vírus e bactérias que também oferecem risco incontestável.

Em Sorocaba — assim como na maioria das cidades brasileiras –, a Secretaria Municipal da Saúde está prorrogando as campanhas de vacinação contra o sarampo, poliomielite e multivacinação, por conta dos baixos números registrados. Inicialmente previstas no calendário anual de imunizações para acontecerem durante o mês de outubro, neste 2020 as ações especiais envolvendo as três vacinas prosseguirão até 13 de novembro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, nas 32 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) sorocabanas. A Prefeitura deixou claro que os objetivos são a redução dos riscos de reintrodução das doenças e a recuperação dos níveis das coberturas vacinais.

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No entanto, a pandemia do novo coronavírus não é a única vilã na crise da cobertura vacinal. A pandemia apenas aprofundou — e tornou mais visível — um fenômeno sem explicações racionais observado há, pelo menos, cinco anos: os pais estão abrindo a guarda e deixando de levar seus filhos para vacinar. Dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, mostram quedas significativas no total de imunizações desde 2015. Pior ainda: a partir de 2018 nenhuma meta do calendário infantil de vacinações foi atingida. As últimas imunizações do público infantil bem-sucedidas no País, há exatos dois anos, foram de 99,72% do público-alvo para a BCG e de 91,33% para o da vacina contra o rotavírus humano. Para ambas, a meta é superar os 90%, patamar que não foi atingido em 2019. Neste ano, até o final de outubro, a taxa de imunização do público-alvo da BCG chegou a 63,88%, enquanto a vacina contra o rotavírus imunizou apenas 68,46%.

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Neste incomum 2020, transfigurado em todos os sentidos pela Covid-19, a maior cobertura atingida no calendário infantil em 10 meses — até este sábado (31) — foi na vacina Pneumocócica, com 71,98%. No ano passado, essa mesma vacina chegou a 88,59% do público-alvo. Segundo o Ministério da Saúde, entre as 15 vacinas do calendário infantil — englobando a segunda dose da Tríplice Viral –, metade não batem as metas desde 2015. Vale destacar que a estatística negativa inclui a vacina contra a poliomielite.

O Sistema Único de Saúde (SUS) identificou algumas possíveis causas para o recuo abrupto da cobertura vacinal no Brasil, como os horários de funcionamento das unidades de saúde, a circulação de informações falsas sobre a segurança das vacinas — as perniciosas fake news — e até mesmo a impressão de que as doenças imunopreveníveis já deixaram de existir. Quaisquer que sejam as intercorrências que influenciaram na mudança de comportamento dos pais, o momento exige ponderação e, principalmente, responsabilidade em todos os âmbitos da sociedade. Antes de tudo, é necessário entender que se tivemos sucesso na luta contra as epidemias em um passado recente, é porque tínhamos coberturas vacinais altas. O cenário passou a correr o risco de inversão a partir do momento em que deixamos de vacinar a proporção recomendável de crianças. A possível consequência disso é a reintrodução de doenças que consideradas erradicadas no País, como a paralisia infantil e o sarampo.

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Quem duvida do perigo que volta a bater à nossa porta por conta da queda da cobertura vacinal deve consultar o relatório mais recente do PNI. Lá, irá encontrar, por exemplo, o seguinte resumo para o sarampo em 2020: transmissão ativa em quatro Estados e casos confirmados em 21. Diante disso, não resta dúvida de que é a melhor estratégia no momento é aproveitar as prorrogações das campanhas de imunização anunciadas pelas prefeituras.

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