Editorial

Flexibilização gradual

A reabertura carece de ajustes que estão sendo realizados

Depois de mais de dois meses de quarentena, o Governo do Estado de São Paulo anunciou, na última quarta-feira, medidas que flexibilizam o distanciamento social. O Estado, como se sabe, é o epicentro da epidemia do novo coronavírus no Brasil e ocupa uma posição fundamental no enfrentamento da Covid-19 em território nacional pelo número de pessoas infectadas e pelo potencial de crescimento da doença em seu território.

Mas também é a unidade da federação com maior população e com a economia mais desenvolvida. Isso nos leva a imaginar a pressão que o governador João Doria recebeu nas últimas semanas para relaxar a quarentena para alguns setores da economia seriamente afetados pela política de distanciamento social.

O governador se manteve, ao longo de todo esse tempo, seguindo as diretrizes de seus assessores na área da saúde. A flexibilização, entretanto, não é uma unanimidade, o que o faz alvo de críticas tanto dos que defendem o isolamento, como daqueles que pedem a abertura.

Pelo que já foi divulgado — e que influenciará a política de flexibilização de todo o Estado, inclusive de Sorocaba — a reabertura ocorrerá em cinco etapas a partir do dia 1º de junho, segunda-feira. Para planejar as etapas foram levados em consideração fatores como número de novas infecções, isolamento social nas últimas semanas e capacidade e ocupação dos hospitais.

O Estado foi dividido em diversas regiões que foram classificadas em fases de abertura. A primeira fase, a vermelha, que num primeiro momento abrange cidades da Região Metropolitana de São Paulo e litoral, é de alerta máximo, um isolamento ainda severo com o funcionamento apenas de serviços essenciais.

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Na fase 2 (laranja) em que a cidade de Sorocaba está inserida, ainda existem medidas restritivas, mas já é possível flexibilizar o funcionamento de alguns setores como concessionárias de veículos, imobiliárias, escritórios e comércios além de shopping centers, desde que observadas algumas restrições de ocupação.

Já nos municípios classificados com a fase 3 (amarela) é possível a reabertura de bares, restaurantes, salões de beleza, mas também com algumas restrições com relação a horários e fluxo de clientes. Na fase quatro (verde), que nenhum município paulista alcançou ainda, haverá maior nível de abertura, inclusive de academias, mas ainda com algumas restrições. E finalmente a fase cinco, que ganhou o nome de “novo normal controlado”, que libera todas as atividades, mas com medidas severas de higiene.

Na realidade, o governo impôs um isolamento social ao Estado para diminuir a velocidade de disseminação do coronavírus — medida sanitária adotada por praticamente todos os países e com a aprovação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ocorre que em nenhum momento o isolamento, quer na capital, quer nas maiores cidades do interior, onde o deslocamento das pessoas foi medido, atingiu a meta de 70%. Mesmo assim houve ganhos, pois a doença certamente teria contaminado um número ainda maior de pessoas se nada tivesse sido feito.

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A reabertura carece de ajustes que estão sendo realizados. Alguns municípios, como Sorocaba, estão solicitando uma reclassificação, pois embora o isolamento social não tenha sido propriamente eficiente nos últimos dias, a Prefeitura alega que tem disponibilidade de leitos na rede hospitalar, um dos fatores que podem alterar o critério.

Se a flexibilização no Estado foi precipitada é difícil dizer. Setores econômicos do Estado mais rico do País aprovaram a flexibilização a partir de 1º de junho, mas cobram a retomada das atividades e o esclarecimento de alguns pontos do projeto. O setor de shopping centers, seriamente afetado pela quarentena, reclama da restrição de funcionamento, pois poderão abrir somente durante quatro horas por dia.

Em outros Estados foram liberadas oito horas. Uma entidade que representa o setor calcula que os 577 shoppings existentes no Brasil amargam um prejuízo de R$ 26 bilhões. Mas a reabertura está longe de ser uma unanimidade.

Especialistas da área da saúde afirmam que reabrir a atividade econômica sem ter certeza que estamos em uma curva descendente de infecções poderá ser arriscado e até comprometer os ganhos conseguidos durante a quarentena.

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No dia em que a flexibilização foi anunciada, o Estado bateu novo recorde com 6.382 novos casos de Covid-19 em 24 horas. O pico anterior, de 4.092 casos novos em um dia, havia sido alcançado em dia 15 de maio. Com o aumento, o Estado tinha 95.865 pessoas infectadas e 6.980 mortos. Ou seja, mesmo em cidades onde vai ocorrer a flexibilização, a população precisará ainda manter os cuidados básicos de distanciamento, higiene e o uso de máscaras, pois a pandemia está longe de terminar.

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