Editorial

Flagrantes de mais desrespeito

Nem mesmo as inúmeras proibições impostas a eventos de Carnaval foram capazes de coibir aglomeração em bares e ruas

Alguns brasileiros não tomam jeito. É aquela turma que, ano sim, e outro também, não respeita nada nem ninguém — muito menos o próximo.

Apesar de todas as recomendações feitas por médicos e especialistas, vimos inúmeros (maus) exemplos de aglomerações durante o período de Carnaval, mesmo com o feriado tendo sido cancelado em 20 das 27 unidades da Federação — claro que em Brasília, terra de nossos queridos políticos e de milhares de servidores públicos, e no Rio de Janeiro, que um dia já foi a Cidade Maravilhosa, mantiveram o feriado.

Nem mesmo as inúmeras proibições impostas pelas autoridades a eventos ligados ao Carnaval foram capazes de coibir aglomeração em bares, ruas, festas clandestinas e comemorações privadas. Chega a ser inacreditável a falta de bom senso de uma parte da população.

Em Sorocaba, por exemplo, uma operação integrada entre a Guarda Civil Municipal (GCM) e a Polícia Militar (PM), com a participação da Vigilância Sanitária (Visa) e da Fiscalização de Posturas, foi às ruas com o intuito de manter o respeito às regras do Plano São Paulo de enfrentamento à pandemia. O objetivo direto era evitar pancadões e outros eventos que pudessem gerar multidão. Também foram fiscalizados estabelecimentos comerciais.

Um dos mais bizarros exemplos de desrespeito foi constatado em uma chácara no bairro Cruz de Ferro, onde era realizada uma festa clandestina com mais de 700 pessoas. Isso mesmo, SETECENTAS pessoas. Para se ter uma ideia da dimensão do evento, havia cerca de 100 veículos no local e 30 deles foram autuados por irregularidades. A

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quantidade de pessoas e veículos era tanta que chegou a congestionar o trânsito local na estrada vicinal entre Sorocaba e Boituva. Felizmente, a festa foi encerrada e os convidados foram orientados pelas autoridades a irem embora. Outra festa clandestina averiguada e desbaratinada pela polícia e autoridades aconteceu no Bairro dos Morros. No local havia uma aglomeração com mais de 200 pessoas.

O evento foi encerrado e as pessoas também acabaram dispersadas. Já no bairro Nova Sorocaba, em um estabelecimento próximo a uma praça, havia mais de 150 pessoas festejando. O proprietário foi orientado a encerrar as atividades. Na Vila Helena, seis estabelecimentos comerciais nos quais havia aglomerações de pessoas foram orientados a encerrar as atividades e 16 veículos nos arredores foram autuados.

No bairro Paineiras, houve 14 autuações de veículos e um acabou guinchado. Outro veículo foi guinchado no Habiteto e mais um autuado. Além dessas ações, houve patrulhamento preventivo a 21 próprios públicos em todas as regiões da cidade.

Ao todo, 118 veículos foram autuados. A operação integrada contou com 20 guardas municipais, em oito viaturas; 28 policiais militares, em 10 viaturas e 6 motos; dois fiscais de posturas, em uma viatura e dois fiscais da Vigilância Sanitária, em mais uma viatura.

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Já na capital paulista, a Vigilância Sanitária fechou 11 estabelecimentos e aplicou 22 multas entre as noites de sexta e sábado. A Guarda Municipal de Campinas fechou uma festa clandestina que reunia mais de três mil pessoas. Em duas noites de trabalho, a força-tarefa criada pelo município para barrar festas e aglomerações somou a dispersão de cerca de 13 mil pessoas.

Ou seja, tanto em Sorocaba como em outros municípios, a polícia e as autoridades fizeram a parte delas. Quem não fez foram os maus cidadãos.

Esses não estão nem aí para nada. Não respeitam o próximo nem a si mesmos, já que podem infectar familiares e amigos. No mundo ideal, deveria existir a seguinte regra: se uma pessoa for pega em aglomeração ou transgredindo alguma regra da pandemia, ela deveria ser obrigada a assinar um termo de responsabilidade abrindo mão de hospitalização, atendimento e cuidados em caso de teste positivo para a Covid. Será que agiriam assim?

Infelizmente, também foi observado um forte movimento nas estradas e sobretudo nas praias do litoral carioca, paulista e do Nordeste. Em São Paulo, a Ecovias, que administra a rodovia Anchieta-Imigrantes, afirmou que pelo menos 170 mil veículos viajaram em direção ao litoral desde a quinta (11).

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A concessionária prevê que 215 mil automóveis façam o percurso nesse período de Carnaval. Se a estimativa se comprovar, haverá queda de 45% ante 2020, quando 388 mil veículos se dirigiram para o litoral durante o feriado. Mesmo tendo caído praticamente pela metade, ainda é um volume muito grande se levarmos em conta a necessidade de isolamento e precaução.

A consequência de todo esse movimento de veículos para o litoral pôde ser vista nas praias. Apesar do tempo nublado em boa parte do final de semana, as praias apresentaram forte movimento de banhistas, a maioria sem máscara, claro.

Das capitais e cidades turísticas, o pior exemplo veio do Rio de Janeiro. Aglomerações foram registradas em vários bairros e situações, desde lotação em bares do Leblon e na Lapa, baile de Carnaval no Jockey Club, festa clandestina em barco na enseada de Botafogo até show do cantor Belo no Complexo da Maré. Falando em Belo, de onde a gente menos espera alguma atitude correta e decente é de onde não vem nada mesmo.

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