Editorial

Fábricas clandestinas

Há indícios de que organizações criminosas têm criado uma estrutura na região para dar suporte a ações ilegais

Fatos recentes indicam que é preciso um trabalho rigoroso de investigação envolvendo as Polícias Civil e Federal em Piedade e municípios vizinhos, pois há fortes indícios que organizações criminosas têm criado uma estrutura na região para dar suporte às suas ações ilegais.

Uma prova disso é que nos últimos dias a Polícia Federal realizou uma operação na região e prendeu dois homens, parte da quadrilha que havia instalado pelo menos duas fábricas clandestinas de cigarros em Piedade e eram responsáveis pelo transporte de trabalhadores paraguaios mantidos em sistema análogo ao da escravidão.

Na última quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em Sorocaba, São Paulo, Embu e Taboão da Serra. Prendeu dois dos acusados pelo transporte dos trabalhadores que tinham mandado de prisão preventiva, mas o homem apontado como responsável pela fábrica conseguiu fugir.

Segundo apuraram os agentes da PF, os cinco trabalhadores encontrados trabalhando em uma das fábricas chegavam ao local vendados e encapuzados, para que não soubessem localizar onde ficava a unidade. Descobriu-se também que os paraguaios foram aliciados no país vizinho com promessas de emprego no Brasil e nem todos sabiam que se tratava de uma fábrica que operava ilegalmente.

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Eles trabalhavam até dez horas seguidas e assim que chegavam ao local de trabalho tinham os celulares confiscados. Enquanto que no Brasil temos enormes dificuldades em bloquear sinais de celulares nos presídios, de onde o crime organizado comanda a bandidagem, os responsáveis pela fábrica de Piedade instalaram um eficiente sistema que bloqueava sinais de celular nos galpões.

Após a descoberta das fábricas pela polícia, os paraguaios ficaram abrigados em uma entidade assistencial e, mais tarde, foram encaminhados de volta para seu país de origem. Os homens presos na quinta-feira e encaminhados ao Centro de Detenção Provisória de Sorocaba são acusados de atuar como fiscais do trabalho na produção clandestina e eram também os responsáveis pelo transporte dos trabalhadores.

Os acusados vão responder por crimes de contrabando, tráfico internacional de pessoas, redução à condição análoga a de escravos, falsificação de selo oficial e sonegação fiscal.

Na madrugada do dia 22 de maio, uma equipe de policiais do Deic de São Paulo, que tentava localizar uma quadrilha especializada no roubo de condomínios, localizou um galpão suspeito. Inicialmente os policiais pensaram que no local funcionava um entreposto de cigarros contrabandeados e que era operado por uma facção criminosa.

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Ao vistoriar o imóvel descobriram que se tratava de uma fábrica que produzia cigarros da marca Eight, a mais contrabandeada do Paraguai para o mercado brasileiro. Na ocasião, 15 pessoas foram detidas, sendo dez paraguaios e cinco brasileiros. Na manhã do dia 16 de junho, menos de um mês depois, a Polícia Militar, que atendia uma ocorrência de furto em chácaras, localizou outra fábrica clandestina de cigarros também na zona rural de Piedade.

No local foram presos cinco paraguaios e um brasileiro. Essa fábrica apenas embalava os cigarros que eram produzidos em outra unidade. Para retirar o material da última fábrica localizada foram necessários cinco caminhões, o que dá a dimensão dos empreendimentos ilegais.

Os cigarros contrabandeados do Paraguai invadiram o Brasil há vários anos. Hoje eles correspondem a 49% do consumo nacional e o campeão de vendas é o da marca Eight, produzida pela Tabacaria del Este S.A. (Tabesa), empresa que fornece de 70% a 80% das principais marcas de cigarros ilegais no Brasil, mesmo sem exportar legalmente um pacote de cigarros.

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A empresa é de propriedade do ex-presidente paraguaio Horacio Cartes. Esses cigarros são vendidos abertamente nas ruas de Sorocaba e depósitos gigantescos já foram localizados no município há pouco tempo. Possivelmente por ser mais rentável e com apoio de facções criminosas, a nova modalidade de crime prevê a montagem de pequenas fábricas em território brasileiro com mão de obra especializada paraguaia mantida em situação degradante.

É um avanço do crime que precisa ser combatido com urgência. Operações sofisticadas como essas reforçam ainda mais o caixa das facções criminosas e precisam ser contidas antes que saiam totalmente de controle.

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