Editorial

Exemplo a não ser seguido

Invasão do Capitólio por apoiadores de Trump fez os EUA passarem por uma das situações mais insólitas de sua história

Quando falamos em democracia americana, o casamento das palavras é natural. Afinal, os Estados Unidos são exemplo e modelo de democracia para o mundo, não apenas por terem surgido antes de todas as demais (em 1776, ano da declaração de independência da Grã-Bretanha), mas também por serem resultado de decisão popular e terem mantido, nesses 245 anos, a tradição de escolha de governantes pelo voto, ainda que através de representantes dos estados.

Por meio de decisões, discutidas, votadas e aprovadas, nasceu não só o país, mas também o modelo de democracia que inspirou tantas outras nações pelo mundo, baseada na defesa dos direitos à vida, à liberdade e à busca pela felicidade, o que incluía o respeito à propriedade privada, à representação parlamentar, à justiça e às diferenças de opinião.

Pois bem, nesta quarta-feira (6), os Estados Unidos e sua festejada democracia passaram por uma das situações mais insólitas de sua história. Um descomunal vexame.

Um de seus maiores símbolos e cartão postal de Washington, o Capitólio foi simplesmente invadido e depredado por manifestantes e simpatizantes do presidente Donald Trump, inconformados com a derrota de seu candidato para o democrata Joe Biden nas últimas eleições.

Para se ter uma ideia da bizarra situação, o prédio é o centro legislativo do país, onde está localizado o Congresso, formado pelo Senado e pela Câmara.

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A invasão aconteceu na esteira das manifestações de Trump de não aceitar o resultado da apuração das eleições e de alegar — sem nenhuma prova ou evidência — que houve fraude no pleito. Desde as eleições e apesar de a Justiça americana ter indeferido todos os pedidos de anulação ou acusação de fraude eleitoral, Trump seguiu incitando seus seguidores a repudiarem o resultado das urnas. O principal alvo do presidente sempre foi o sistema de votação pelo Correio, com o qual acabou sofrendo uma virada em estados fundamentais para a definição do próximo presidente americano.

No domingo (3), como uma espécie de cereja de um bolo que vem azedando há muito tempo, veio a público uma conversa telefônica entre Trump e o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger. Na ligação, de forma constrangedora, Trump pede ajuda para que a autoridade “encontre” cerca de 11 mil votos que o fariam ganhar o pleito naquele Estado. Apesar das negativas de Raffensperger, Trump insistia no bizarro pedido.

Após esse telefonema e antes da invasão do Congresso, já era possível medir o isolamento político de Trump. Em carta aberta e assinada por 10 ex-secretários de Defesa dos EUA, entre eles os falcões Dick Cheney e Donald Rumsfeld, arquitetos das guerras no Iraque e conservadores até o último fio de cabelo branco, o grupo não apenas reconhecia o resultado da eleição como descartava qualquer manobra política ou mesmo militar para alterar o rumo das coisas. Basicamente diziam que as eleições já haviam terminado e seus resultados eram soberanos.
Mas daí chegou o dia de ontem, data em que estava marcada a sessão para a certificação dos resultados da eleição americana no Congresso.

Por mais que o mundo soubesse das trapalhadas e irresponsabilidades de Trump, ninguém seria capaz de imaginar uma situação como a vista ontem no Capitólio. Por sinal, nem mesmo as forças de segurança do local, que não conseguiram impedir a baderna. Inclusive, após os eventos, passaram a circular vídeos com supostas imagens de seguranças permitindo a entrada dos manifestantes.

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Os gabinetes tiveram de ser evacuados. Mesmo assim, manifestantes entraram até nos plenários. Chegaram a sentar na cadeira do presidente do Senado, numa situação vexatória jamais vista.

As imagens chocaram o mundo. Foi como se o coração da política americana sofresse uma punhalada.
Segundo a polícia, uma mulher morreu baleada dentro do Capitólio. A situação foi tão absurda que o presidente eleito, Joe Biden, teve de ir à TV para fazer um pronunciamento condenando o ataque e classificando-o de “desordem, caos, insurreição”. Biden cobrou do presidente Trump uma ação enérgica para desencorajar os manifestantes e colocar ordem na situação. O próprio atual vice-presidente, Mike Pence, foi às redes sociais e praticamente assumiu o papel de líder do país ao repudiar os atos, alertar para os riscos e pedir o fim da invasão e violência.

Para se ter uma ideia do absurdo ocorrido na capital americana, a invasão ao Capitólio não tem precedentes na história recente do país. Episódios mais próximos a esse datam do século 19, em um contexto ainda de consolidação de sua independência e da Constituição.

Trazendo para os dias atuais, ela revela as graves consequências da polarização política baseada no ódio e no “nós contra eles”. O episódio também reforça a importância das instituições, de uma Justiça Eleitoral independente e de uma democracia realmente sólida.

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Caso contrário, como observado de forma estarrecedora nos EUA, o slogan usado por Trump desde sua primeira campanha eleitoral, o famoso “Make America Great” (Faça a América Grande), pode se transformar e ser sintetizado numa frase proferida por um congressista americano durante a invasão de ontem. “Isso aqui está parecendo uma República de Bananas.”

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