Editorial

Ensino profissional

A origem e os primeiros anos de funcionamento da Etec Fernando Prestes se mesclam com a origem dos cursos profissionalizantes no Brasil

Sorocaba deve muito de seu progresso à Escola Técnica Estadual Fernando Prestes que este mês está comemorando 90 anos de existência. Hoje administrada pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, a unidade de ensino foi criada no início da segunda década do século passado e efetivamente instalada em junho de 1929 com o nome de Escola Profissional Secundária Mista de Sorocaba, funcionando precariamente em um sobradão da região central, na confluência das ruas Barão do Rio Branco e Álvaro Soares. Entre os primeiros cursos implantados estavam os de artes domésticas, como Corte e Costura e Bordado e os efetivamente profissionalizantes como entalhe em madeira, tornearia, marcenaria, fundição e serralheria. Começou a funcionar junto à instituição, em regime de cooperação com a Estrada de Ferro Sorocabana, o Curso Ferroviário, que na realidade viabilizou a implantação e funcionamento em Sorocaba da Escola Profissional. Inicialmente o Curso Ferroviário deveria funcionar em Mairinque, onde se concentravam as oficinas da ferrovia, mas foi destinado a Sorocaba, para onde as oficinas começavam a ser transferidas, até tornar o município um dos maiores polos ferroviários da América do Sul.

A origem e os primeiros anos de funcionamento da Escola Fernando Prestes (que recebeu esse nome em 1930) se mesclam com a origem dos cursos profissionalizantes no Brasil, quando o país até então com economia predominantemente agrária, começava a se industrializar e precisava de mão de obra especializada. Os primeiros Liceus de Artes e Ofícios surgiram em alguns Estados ainda durante o Império em 1856, mas foi na República que a preocupação em criar cursos com o objetivo de ensinar práticas industriais e manufatureiras começou a ganhar corpo. Alguns autores indicam três fatores que podem ter sido fundamentais para o desenvolvimento do ensino profissional: o processo de urbanização, a industrialização e a chegada de um grande número de imigrantes, muitos deles trazendo na bagagem conhecimentos técnicos apurados.

Sorocaba era uma exceção entre as cidades paulistas. Seu ciclo industrial começou muito antes de outras cidades, ainda no século 19 com a implantação da indústria têxtil e a construção da ferrovia. Outro fator que contribuiu para a expansão do ensino profissional foi a chegada da estrada de ferro em várias regiões do país. Os dirigentes das ferrovias tomaram por base experiências bem-sucedidas em países europeus no desenvolvimento e formação de ferroviários. O aprendizado tradicional, baseado na observação e de execução de pequenos trabalhos nas oficinas, como era tradição nas primeiras ferrovias do Brasil, deu lugar a um ensino estruturado e dirigido para formar pessoal bem preparado para atuar nos diversos setores das oficinas.

Aos cursos da Escola Fernando Prestes, que ao longo dos anos mudou várias vezes de endereço, vieram se juntar outras iniciativas dignas de destaque no ensino profissionalizante, como a escola do Senai, mantido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). O Senai de Sorocaba, construído em terreno doado pela Prefeitura, passou a funcionar em 1959, quando a cidade já tinha um número grande de operários na indústria. Nos primeiros anos oferecia os cursos de ajustador mecânico, mecânico eletricista, torneiro mecânico e mecânico de automóvel.

A existência de mão de obra especializada foi essencial para o crescimento de Sorocaba. Na década de 1970, quando houve a criação da zona industrial e a expansão e diversificação das indústrias de Sorocaba, pesou muito a existência de mão de obra especializada. Essa característica se estende até os dias de hoje, quando a cidade diversificou ainda mais seu parque industrial acrescentando uma grande indústria automobilística e seus fornecedores diretos. O ex-CEO da Toyota para a América Latina e Caribe, Steve St. Angelo, que se aposentou no último mês de março, confidenciou ao Cruzeiro do Sul no ano passado que o impressionava a qualidade da mão de obra da fábrica de Sorocaba, um fator que será decisivo para sua ampliação no futuro. St. Angelo sabia o que estava falando. Filho de um metalúrgico de Detroit, também trabalhou no chão de fábrica de montadoras daquela cidade dos Estados Unidos enquanto cursava Engenharia em período noturno. Formado, dirigiu indústrias ao redor do mundo até encerrar sua carreira meses atrás. Classificou a mão de obra de Sorocaba como uma das melhores que já tinha visto.

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