Editorial

Confira o editorial: “…enquanto a caravana passa”

Observa-se atualmente poucas e roucas críticas à saída dos médicos cubanos

Observa-se atualmente poucas e roucas críticas à saída dos médicos cubanos, que foram levados de volta para seu país por uma atitude unilateral de… Cuba. Quem acompanhou as notícias pode ver a grande fila de passageiros carregados de presentes e TVs que se formou nos aeroportos para embarcar em aviões que foram trazidos por Cuba.

Enquanto alguns saudosistas do velho Fidel, que montou uma das ditaduras mais antigas do mundo e nada observadora dos direitos humanos, uivam para a lua lamentando a saída dos médicos cubanos e numa visão insólita dizem que o recém-eleito regime presidencial brasileiro terminou com o Programa Mais Médicos, a realidade é bem outra. Observe-se o que o próprio partido que criou o Programa escreve em seu website: “O governo de Cuba anunciou a saída no dia 14 de novembro. A decisão foi tomada após o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) anunciar que faria alterações nos acordos firmados desde o início do programa. Em nota, o governo cubano destacou que, perto da data de expiração do contrato em 2016, o país continuaria a participar no acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para a aplicação do Programa Mais Médicos, ‘desde que mantidas as garantias oferecidas pelas autoridades locais’. Dessa forma, segundo o Ministério da Saúde Pública de Cuba, as mudanças no contrato, iniciado em 2013 e ratificado em 2017, aliadas às declarações depreciativas feitas por Bolsonaro aos médicos do país, foram determinantes para a saída dos profissionais do programa.” (pt.org.br)

Quem tomou a iniciativa foi o próprio governo de Cuba num acesso de futurologia e “achismo” do que um governo ainda em formação, faria. “(…) diante dessa lamentável realidade, o Ministério de Saúde Pública de Cuba tomou a decisão de não continuar participando do programa, o que foi comunicado à diretoria da Organização Pan-Americana de Saúde e aos líderes brasileiros que fundaram e defenderam essa iniciativa”. E qual seria a nova realidade e declarações depreciativas? “(…) passando pela decisão nossa exigiremos que qualquer médico estrangeiro passe pela prova do Revalida.” (…) “fazer exigências para o governo cubano é uma ‘questão humanitária”. “É desumano deixar essas pessoas (os médicos) afastadas de suas famílias.” Sim, uma exigência de Bolsonaro era que aqueles que quisessem permanecer no Brasil e passassem pelo exame de aprovação profissional poderiam trazer sua família. E que recebessem integral e igualitariamente o que o Brasil paga para o Mais Médicos.

Que futuro incerto terão esses médicos cubanos que agora poderão reunir-se com seus familiares que eram, como é de conhecimento das pessoas não obtusamente vocacionadas, reféns para garantir que os médicos no Brasil não pedissem asilo político aqui ou nos EUA, como aconteceu na Venezuela? Entre setembro de 2013 e o mesmo mês de 2014, mais de 700 médicos enviados por Havana para trabalhar na Venezuela desertaram, segundo a ONG americana SSF (Solidariedade Sem Fronteiras). Até 2013, a média anual de deserções naquele país — onde atuam cerca de 30 mil médicos cubanos — era de 300. Desde 2006, os EUA receberam 8.000 médicos cubanos, segundo o presidente da SSF, Julio César Alfonso.

Que frustração, então, terão esses profissionais, pessoas de carne, osso e sentimentos que se viram como parte de um tráfico humano, com apontados em processos nos EUA, e que agora terão que voltar à dura realidade de viver em Cuba, onde ganharão ainda menos que os 25% do que recebiam aqui porque os 75% restantes eram retidos pelo governo cubano e pela tal Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), órgão ligado à ONU que atua como intermediário no envio de recursos do programa Mais Médicos?

A Folha de S. Paulo, em março de 2015, escreveu pela sua repórter Cláudia Colucci: “O governo de Cuba — isso mesmo, de Cuba — está ameaçando cassar o diploma de profissionais do Mais Médicos que insistirem em manter seus familiares no Brasil. Outra forma de pressão tem sido reter em Cuba o médico que sai de férias e que precisa obrigatoriamente gozá-las na ilha. Ele só poderá retornar ao Brasil se, antes, o parente voltar para a ilha.”

Os que choram pelo leite derramado percebem o grande problema que isso trará para aquela ditadura que inventou o “paredon” com milhares de mortos, e mantém 120 prisioneiros por motivos políticos, reconhecidos até 31 de maio de 2018. De acordo com a Agência France Presse, 91 são opositores, ou desafetos do regime; cinco, ex-militares ou ex-funcionários; e 24 prisioneiros que estão sendo acusados por empregar, ou planejar, usar alguma forma de força, ou violência, para realizar “atos contra a segurança do Estado”. Qual é o problema de fato?

A saída de Cuba do Programa Mais Médicos vai representar um importante baque nas exportações de serviços de saúde da ilha — sua principal fonte de renda internacional. Bem mais lucrativo que a exportação de produtos produzidos lá, como açúcar, tabaco, rum ou níquel, o envio de profissionais de saúde para o exterior responde por 11 bilhões de dólares dos 14 bilhões de dólares que Havana arrecada por ano com exportações de bens e serviços, segundo dados da Organização Mundial do Comércio e da imprensa estatal cubana. O regime cubano deve perder 332 milhões de dólares (ou mais de R$ 1,1 bilhão) por ano. O valor supera as exportações de charutos (259 milhões de dólares por ano, segundo o Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e cria mais um desafio econômico para o país. A estimativa do prejuízo é do economista cubano Mauricio De Miranda Parrondo, professor titular da Pontifícia Universidade Javeriana de Cali, na Colômbia. Para cobrir o buraco deixado pelo fim dos aportes do Mais Médicos, o turismo de Cuba precisaria crescer 10% — uma meta impossível enquanto houver sanções dos EUA, segundo especialistas.

A atitude precipitada de Cuba em relação aos Programa Mais Médicos trará prejuízos grandes a Cuba. Será, no entanto, um passo na reunificação de famílias separadas, até que o tráfico de pessoas retorne para uma próxima missão. Entre nós, a caravana continua seu caminho enquanto os uivos antigos se esvanecem ao longe, longe das verdades.

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